As fusões e aquisições estão em alta. O Brasil experimentou em 2020 um recorde histórico neste tipo de transação.

O cenário de forte competição pelo dinheiro curto do consumidor e as pressões da conjuntura econômica, com ou sem pandemia, obrigam que até mesmo empresas familiares, geralmente mais avessas a grandes mudanças, mantenham essa possibilidade no radar.

Vamos aos pontos que me levam a defender esta tese.

As operações de M&A em um negócio familiar podem ocorrer por diversos motivos.

As operações de M&A em um negócio familiar podem ocorrer por diversos motivos (Imagem: Freepik/pressfoto)

Alguns mais previsíveis, como a falta de interesse pelo negócio entre os herdeiros dos fundadores e a ausência de um plano de sucessão; outros circunstanciais, como uma forma de capitalizar a empresa para crescer, por exemplo, ou ainda evitar uma crise futura por meio de uma aliança estratégica.

De acordo com a 10ª Pesquisa Global sobre Empresas Familiares – 2021, feita pela consultoria PWC, apenas 24% têm planos de sucessão e 36% dizem que há resistência às mudanças. Para efeito de comparação, na média global 30% têm planos de sucessão e 29% se declaram refratárias a alterações.

Com a aceleração do processo de digitalização devido à pandemia, muitas empresas se viram obrigadas a antecipar planos de investimento em tecnologia, o que também pode ser um motivo para atrair um novo sócio, com dinheiro ou expertise no mundo digital.

Segundo o relatório 2021 da PWC, 28% dos entrevistados brasileiros afirmam que suas empresas dispõem de fortes recursos digitais, enquanto, na média global, esse percentual é de 38%.

A pesquisa da PWC entrevistou representantes de empresas familiares em 87 países ou territórios, sendo 282 delas no Brasil, entre outubro e dezembro do ano passado.

De acordo com dados do Sebrae, 90% das empresas brasileiras são familiares, ou seja, apresentam como principal característica que a propriedade e a gestão estão nas mãos de dois ou mais membros da mesma família. Elas respondem por cerca de 65% do Produto Interno Bruto do país e empregam 75% da força de trabalho.

Os dados do Sebrae mostram, no entanto, uma característica preocupante: 70% dessas empresas não resistem à segunda geração da família no comando. Acabam fechando as portas após o afastamento do fundador, seja por desinteresse dos herdeiros ou por incapacidade de continuar a estratégia ou modelo de gestão.

Quer bons exemplos na gestão de empresas familiares?

Há casos de sucesso na passagem de bastão nessas companhias. A Magalu (MLGU3), que chegou, no fim do ano passado, ao posto de sexta empresa mais valiosa da bolsa brasileira, com valor de mercado de R$ 178 bilhões, talvez seja um dos mais conhecidos.

A varejista, fundada em 1957 em Franca (SP), se transformou, na terceira geração de sucessão, em um ecossistema digital do varejo brasileiro, assemelhando-se mais ao modelo da Amazon do que das tradicionais lojas de departamentos que operam por aqui.

O caso da Dasa Diagnósticos, líder no país em medicina diagnóstica, com a maior rede de laboratórios, que engloba as bandeiras Delboni Auriemo, Salomão Zoppi e Lavoisier, também se destaca.

Pedro Bueno, enteado de Dulce Pugliese, continua como presidente do grupo Dasa, que, desde 2017, acelerou seu processo de digitalização e inovação (Imagem: Divulgação/Dasa/LinkedIn)
Pedro Godoy Bueno, filho do controlador Edson Bueno, assumiu o comando da empresa em 2015 e iniciou a transformação digital da rede. Deu autonomia em posições-chave e atraiu grandes talentos do mercado para se envolverem na cultura da empresa.

Em 2017, Edson Bueno, que foi fundador da Amil, junto com a então esposa, Dulce Pugliese, morreu de infarto durante um jogo de tênis. Em testamento, Edson deixou os direitos de voto de suas ações para Dulce, que sempre teve 49% dos negócios, e dividiu os direitos econômicos dos papéis para os dois filhos.

Pedro Bueno, enteado de Dulce Pugliese, continua como presidente do grupo Dasa, que, desde 2017, acelerou seu processo de digitalização e inovação. As ações triplicaram de valor após a pandemia e, em março, a empresa anunciou planos de lançar uma oferta restrita de ações para levantar R$ 5 bilhões.

Outro caso que chama a atenção é o da ABC da Construção. O negócio familiar nasceu em 1990 como uma loja de materiais do interior de Minas Gerais. Em 2006, o atual presidente, Tiago Moura Mendonça, neto do fundador, assumiu a direção das lojas e implementou uma mudança de posicionamento.

A rede passou a focar em acabamentos, como azulejos e pisos, e investiu em um novo modelo de negócios, com parcerias com lojistas de cidades pequenas, centralização de estoque e vendas online.

Para manter a expansão, a companhia então optou por receber recursos de venture capital e private equity, que viraram sócios do negócio. O aporte dos fundos Spectra, Fir Capital e Redpoint eventures ocorreu em 2020, já após a pandemia, e o total de investimentos, junto com o dos sócios fundadores, alcançou R$ 125 milhões.

O grupo do setor de alimentos J. Macedo, dono das marcas de farinha de trigo Sol e Dona Benta, é outro que se mantém familiar mesmo depois de recorrer a aquisições para sustentar o crescimento.

Amarílio Macêdo, o principal representante da família do fundador à frente do grupo, segue com a ideia de perenizar o negócio com a família, como queria seu pai, o fundador, mas também recorrer ao mercado para financiar a aceleração do desenvolvimento.

Esses casos de sucesso têm como ponto de convergência importante o cuidado com a governança corporativa. Por minha experiência, o trabalho de estruturação de uma holding já é complexo por si só.

No caso de uma empresa familiar, o terreno ainda é mais instável e pode durar até quatro anos; seja com objetivo de vender a empresa, quando não há herdeiros interessados em seguir no negócio, seja para receber um novo sócio-investidor.

É preciso estabelecer regras, um estatuto societário, deixar claro quem manda em que área e, essencial, ter ………… Por Marly Parra – executiva com experiência em diversas multinacionais, membro da Comissão de Ética em Governança do IBGC e Conselheira na Solstic Advisors Leia mais em moneytimes 22/06/2021