‘O Brasil está virando um país insignificante para o investidor estrangeiro’, afirma CIO da TAG Investimentos
No entanto, André Leite, Chief Investment Officer (CIO) da TAG Investimentos, destaca um outro fator: a falta de previsibilidade jurídica para as empresas.
Em entrevista exclusiva para o Money Times, Leite afirma que a insegurança jurídica pesa na confiança do investidor e no preço dos ativos locais.
“Quando se compara o S&P 500 com o Ibovespa, nota-se que o retorno de capital do S&P 500 é quase uma linha reta, absolutamente previsível. Já o retorno da bolsa brasileira parece um eletrocardiograma de alguém que está infartando, sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce”, disse.
Segundo um estudo da TAG Investimentos, o retorno médio do acionista — o ROE (return on equity) –, desde 1998, do SPX foi de 13,74%, enquanto o IBOV trouxe um retorno de 11,44%, sendo que a volatilidade dos retornos na bolsa americana é menor.
Essa diferença é puxada, principalmente, por menores despesas financeiras das empresas e cargas tributárias do lado dos EUA. Também pesa na bolsa brasileira a maior presença de empresas de commodities, que são cíclicas por natureza, e uma maior volatilidade macro e política.
Um exemplo de insegurança jurídica citado pelo CIO é a Medida Provisória 1227/24, que impõe restrições à compensação de créditos das contribuições ao PIS/Pasep e à Cofins.
“As empresas viram aquilo, elas ficaram absolutamente loucas, porque simplesmente o modelo de negócio ia acabar. O pessoal conseguiu barrar essa história, mas é para você ver o nível de imprevisibilidade. É uma economia que da noite para o dia muda tudo”, disse.
Confira a entrevista completa com André Leite, CIO da TAG Investimentos
Money Times: Qual é o cenário macroeconômico que a gente vê no Brasil hoje?
André Leite: O cenário macroeconômico do Brasil é um cenário no qual que você tem preços muito baixos. Os ativos, de modo geral, estão bastante atrativos, só que é aquela história: a gente está com um governo que não é comprometido com o fiscal.
Mas também não dá para dizer que a situação do fiscal que chegamos é culpa desse governo, né? A gente teve uma série de aumentos de gastos que começaram no governo Bolsonaro. A questão é que o governo Lula manteve esses gastos.
O que nós temos é um problema de estrutura de como cuidamos dos gastos no Brasil. Mais da metade desses gastos são reajustados pelo salário mínimo, que tem tido reajustes reais muito grandes nos últimos 20 anos. Foi quase 160% de reajuste real, ou seja, acima da inflação.
Esse é o tipo de coisa que você não consegue mais encaixar no orçamento. Tanto é, que hoje, só 4% do nosso orçamento é utilizado utilizar para despesas discricionárias, os famosos investimentos livres do governo. E no ritmo que a gente está, daqui a uns quatro ou talvez seis anos, a gente vai chegar no ponto de que 100% das despesas vão estar comprometidas com gastos obrigatórios. Daí, vamos ter um problemão, porque no dia que você tiver que emitir dívida para poder pagar a despesa corrente, você quebra a lei de ouro da responsabilidade fiscal. Além de você ter aquilo que a gente chama de shutdown do Estado. Simplesmente o Estado deixa de funcionar.
MT: Como é possível reverter esse cenário?
AL: Há algumas soluções. A primeira é a mais clara, a mais óbvia, mas a gente não vê disposição disso na sociedade brasileira, que fazer uma reestruturação total dos gastos do Estado.
A segunda hipótese para financiar esse aumento do crescimento de gastos é emitir mais dívidas, que foi o que o Brasil fez. O endividamento do país aumentou muito nesses últimos anos.
A questão é que o mercado está cobrando um valor “premium”, as taxas de juros longas estão aumentando e a moeda também está desvalorizando. E o mercado financeiro está dizendo que não quer mais emprestar dinheiro para o governo gastar, pelo menos não nesses preços. Ou seja, ele vai cobrar mais para fazer isso.
E a terceira solução é deixar a inflação subir. Quando você tem a inflação subindo, automaticamente você tem uma corrosão da dívida interna. Mas isso aqui é uma baita transferência de renda das populações mais pobres. Os mais ricos conseguem se defender porque eles têm investimentos, mas as populações mais pobres acabam transferindo a renda delas para poder acertar o problema do Estado.
MT: Esse anúncio recente de congelamento de R$ 15 bilhões muda a confiança do mercado?
AL: A ordem de grandeza do orçamento brasileiro é de trilhão de reais e a gente está falando se vai ser um corte de R$ 15 bilhões, R$ 20 bilhões… Do ponto de vista do problema, não faz diferença nenhuma. É a mesma coisa que ir para praia e discutir se você vai deixar mais dois ou três grãos na areia em relação ao que tinha antes ou não. É uma situação absolutamente boba.
O que o mercado enxerga com isso? A expectativa é de que aja um comprometimento de R$ 25 bilhões, R$ 35 bilhões, e não só esses R$ 15 bi ridículos que o governo anunciou. É muito menos um número e muito mais uma disposição do governo de mostrar seriedade.
O fato de ser R$ 15 bi ou R$ 30 bi não vai mudar muito a vida de ninguém no final do dia. Mas você está vendo que tem um governo comprometido com a questão fiscal. Até porque o nosso problema em relação ao fiscal é muito maior do que esses ajustes na boca do caixa que estão sendo feitos agora.
A gente tem um problema, por exemplo, que é o apagão demográfico que a gente está vivendo. As gerações mais novas decidiram não ter mais filhos, que é uma decisão até inteligente do ponto de vista pessoal, porque você vai ter menos gastos, só que do ponto de vista coletivo é um suicídio.
O que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer que as despesas previdenciárias estão crescendo em taxas absolutamente altas. Hoje, você tem duas pessoas na ativa pagando um aposentado; em 2040, a previsão é que você vai ficar um para um. O INSS é uma pirâmide que vai explodir e isso está na base da estrutura de gastos do governo.
Além disso, o nosso governo gasta muito mal. Você olha, por exemplo, para o sistema educacional. Comparado com outros países emergentes, a gente gasta em educação a mesma coisa que os bons emergentes gastam. Só que o nosso resultado na prova do Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes] é um desastre. A gente está sempre ali em último lugar.
Então, é claro, o governo brasileiro poderia usar melhor o dinheiro que a gente dá na mão dele, só que tem um problema que não depende desse governo ou de qualquer outro governo. Mas tem um problema previdenciário, um problema demográfico, que já está começando a aparecer.
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