A indústria bélica Avibras tem vivido sua própria batalha nos últimos anos e as possibilidades de desfecho, diante de uma empresa definhando, mostram ainda uma falta de sintonia e estratégia com seu sócio minoritário, o governo. A companhia de controle privado está negociando a venda integral para a australiana DefendTex, numa transação que avança uma casa e volta três desde abril. Outra interessada apareceu, a chinesa Norinco, com outros termos de negociação: mas a Avibras, em recuperação judicial, não ouviu a proposta até agora. Para completar, há duas semanas, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) apresentou um projeto de lei para estatização da Avibras – tema que já esteve na mesa outras vezes, dada a sensibilidade estratégica e tecnológica da atividade fim.

A companhia esperava comunicar um avanço da tratativa de venda para a DefendTex ontem, dia 30 de julho. Hoje, comunicou que ainda não houve avanço em condições precedentes, mas “continua apoiando” a australiana em seus esforços. Pode ser um brecha para a chinesa Norinco, que já esteve com o governo, numa reunião com o vice-presidente e ministro de desenvolvimento e indústria, Geraldo Alckmin, em setembro do ano passado. Em junho, dadas as negociações inconclusivas com a australiana, a Norinco voltou a se manifestar – e registrou em carta ao ministério da Defesa seu interesse em aquisição de participação. Mas nem o dono da Avibras, João Brasil, nem os advogados da empresa ou administrador judicial sentaram para ouvir.

“Seguimos interessados. A Norinco quer uma parceria longeva, não é aquisição de controle, não é levar a tecnologia embora, é apoiar o desenvolvimento da operação local e abrir mercado para vendas à Ásia, por exemplo”, diz Walter Haddad, sócio da Norinco do Brasil, ao Pipeline. A Norinco do Brasil é uma subsidiária local que tem Haddad como administrador e é controlada pelo grupo chinês. O ex-militar trabalha com os chineses há 12 anos no objetivo de abrir uma frente de negócios e relacionamentos no país nessa área.

A empresa já participou de três licitações recentes, mas não ganhou – como o país segue as especificações da OTAN, as propostas chinesas não atendem a demanda técnica. A proposta da Norinco é a compra de participação de 49% da Avibras, com o controle brasileiro.

Mas, pela atividade da companhia, não dá para ignorar o viés político nas conversas. “O governo, qualquer que seja ele, tem interesse em manter essa tecnologia no país e tem poder de veto, seja na venda de produto ou da companhia. Mas hoje, diante da situação da empresa e das relações internacionais, vemos que há uma certa preferência neste governo pelos chineses e por isso empecilhos para os australianos”, diz Fulvio Delicato, CEO da consultoria especializada Aerospace BR. Ele faz referência ao programa aeroespacial entre Brasil e China, que tem sido bem-sucedido: o CBERS, que já resultou no desenvolvimento de cinco satélites, teve mais um acordo firmado em junho deste ano, para um novo satélite.

Por outro lado, no setor e numa ala militar, a resistência é em relação aos chineses. “Uma das razões para isso foi a experiência com a Embraer China, onde os chineses diziam que iam oferecer tecnologia e acabaram aprendendo a fazer avião por conta própria”, diz Delicato, sobre a joint venture Harbin Embraer, já encerrada. Há ainda, em ala do governo, preocupação que uma sociedade desse tipo, nesta área, leve a um embargo dos Estados Unidos à exportação e ao uso de produtos de defesa norte-americanos para o Brasil.

“A Austrália, por outro lado, tem uma tradição de bons negócios com seus parceiros. Nesse caso, é a venda total que preocupa, em relação ao que seria mantido de operação no país”, emenda o consultor.

O PL de Boulos, por sua vez, pede a “desapropriação por utilidade pública” da Avibras, destacando que a companhia fabrica desde sistemas de artilharia e defesa de aeronaves, foguetes e mísseis, a sistemas de armas, incluindo foguetes de artilharias e mísseis, além de veículos blindados. Apresentado no dia 18 de julho, ainda não teve qualquer tipo de andamento.

Haddad, da Norinco do Brasil, já ouviu todo tipo de avaliação. Ele diz que, pelo histórico do país com EUA e Europa, é natural que houvesse uma predileção por um acordo societário com empresas dessas origens – mas não há interessados na mesa nesses casos. “Queremos apresentar nossa proposta. E se a decisão for com os australianos, esperamos que seja pelo bem da companhia. O que queremos é participar da solução e, se não for com a Avibras, vamos trabalhar em outras frentes de negócios”, diz o executivo.

No comunicado de hoje em que cita a empresa australiana, a Avibras diz também que “reiniciou negociações com outras partes interessadas, inclusive com investidores que recentemente demonstraram interesse em uma possível transação”, sem identificá-los.

A Avibras pediu recuperação judicial em 2022, pela segunda vez. A empresa já tinha passado por esse processo em 2008, quando o governo, então credor, virou acionista minoritário e ganhou uma espécie de golden share. Desta vez, declarou uma dívida de R$ 600 milhões e teve o plano de RJ aprovado no ano passado, mas não consegue cumpri-lo.

Há duas semanas, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos ajuizou uma ação civil coletiva contra a Avibras e seu sócio majoritário, João Brasil, pedindo que o patrimônio pessoal do empresário seja usado para pagamento das dívidas salariais, que atingem cerca de R$ 280 milhões – são 15 meses sem pagamento dos salários.

“A empresa em si é uma joia rara na nossa indústria. Quase 10 anos antes da Embraer ser fundada, a Avibras já tinha seu avião voando, para dar uma ideia da inovação da companhia”, diz Delicato. “Mas é uma empresa familiar, administrada em decisões no calor do almoço e na discussão da janta, com conselho pouco ativo e sérios problemas de gestão por causa disso, que se revertem em problemas financeiros.”

Procurada, a Avibras não deu entrevista… leia mais em Pipeline 31/07/2024