Com enfermeiras que treinam IA, Revena atrai fundador da Odontoprev e ex-CEO do Fleury
Os empreendedores Mateus Noronha e Diogo Freitas estavam tão dispostos a identificar uma dor no setor de saúde que passaram quatro meses trabalhando como voluntários em um hospital de São José dos Campos. Queriam viver no dia a dia o que haviam ouvido de um amigo que trabalhava em hospital: o nicho ainda carece de tecnologia e gasta muito tempo com trabalhos manuais que poderiam ser automatizados.
Assustaram-se, nos primeiros dias, quando viram as pilhas de papéis impressos só com prontuários médicos, e com a constatação que uma enfermeira poderia ficar três horas digitando burocracias referentes a consultas e exames – papelada que depois passaria a outra enfermeira, que transformaria os atendimentos em contas a serem pagas. “É um fardo administrativo muito grande”, disse Noronha ao Pipeline.
O departamento financeiro do hospital, na visão da dupla, era o que mais precisava de ajuda. Daí nasceu a Revena, startup que desenvolveu uma tecnologia, com inteligência artificial generativa, que lê documentos (como os prontuários) e automatiza tudo o que vira cobrança, para pacientes ou planos de saúde.
A startup, cujo nome mistura “revenue”, receita em inglês, com automatização, começou a operar neste ano e acaba de receber um aporte de R$ 5,5 milhões, em rodada liderada pela Caravela Capital, com a participação de investidores-anjos como um dos fundadores da Odontoprev, Renato Velloso, e um ex-CEO do Grupo Fleury, Mauro Figueiredo.
“Conseguimos reduzir o nível de erros nas contas e também o tempo para serem feitas: as contas que demoravam de dois a três dias para serem geradas agora levam duas horas“, disse Noronha, CEO da Revena. Das seis pessoas contratadas pela startup, três são enfermeiras que se dedicam a treinar a ferramenta de IA generativa, e os demais são desenvolvedores.
Velloso, um dos investidores-anjo, conheceu Noronha por meio de um fundo de venture capital. “As grandes redes de hospitais são mais organizadas, com estruturas parrudas, mas há provedores de pequeno e médio que têm dificuldade para fechar as contas e ficam na mão dos grandes planos de saúde”, diz o investidor.
O hospital de São José dos Campos que serviu de inspiração para a Revena, o GACC, acabou virando também o primeiro cliente. Hoje são cinco hospitais no portfólio, com 250 leitos na soma, que pagam à Revena uma comissão por cada cobrança gerada. O objetivo da startup é chegar a 10 até o fim do ano.
O trabalho voluntário que fez para conquistar o primeiro cliente não foi uma novidade para Noronha, engenheiro que foi “ongueiro” antes de empreender. Enquanto estudava no ITA, atuava como um dos diretores de um cursinho gratuito de São José dos Campos, onde dava aulas, captava recursos e resolvia pepinos, passando mais tempo na ONG do que na faculdade. O trabalho abriu seus olhos para gargalos na educação, e então resolver criar a sua primeira startup em 2014. A Eduqo fornecia ferramentas de aprendizagem para escolas e foi vendida para a Arco em 2021.
Foi durante o tempo de Eduqo, aliás, que Noronha conheceu o GACC: os pacientes do hospital tinham acesso a aulas digitais para que as crianças não perdessem o ano escolar enquanto estavam em tratamento de câncer. Em hospitais, ele notou que é comum o time financeiro não saber quanto custa cada paciente e o quanto está previsto para receber naquele mês. “São dúvidas que não se vê os CFOs de outros setores tendo.”
Embora esteja focado em resolver os gargalos dos hospitais de pequeno e médio porte, Noronha diz que não teme perder espaço em meio à consolidação que tem marcado esse segmento, com grandes redes comprando players menores. “Só 20% do setor é consolidado e os outros 80% são dispersos, como os filantrópicos. Nós também queremos entrar nas grandes redes, daqui a um ou dois anos, porque elas também têm outras dificuldades que podemos ajudar a solucionar”, diz. A Revena também mira clínicas e laboratórios para aumentar a carteira de clientes… leia mais em Pipeline 02/08/2024

