Se erguer florestas ajuda a mitigar as mudanças climáticas, a startup Terradot quer adotar uma solução pouco conhecida de captura de CO2 da atmosfera: as rochas. Nascida com dupla nacionalidade, brasileiro-americana, a companhia acaba de ganhar uma chancela à tese um cheque de US$ 58 milhões (aproximadamente R$ 353 milhões) em rodada série A.

O aporte reuniu pesos-pesados da tecnologia mundial e do venture capital global: Google, Microsoft, o investidor e autor John Doerr (da gestora Kleiner Perkins), Floodgate, a executiva Sheryl Sandberg (que foi COO do Facebook e era braço direito de Mark Zuckerberg), Valor Capital, Gigascale Capital e Acre Venture Partners.

É a segunda captação da companhia que, em 2023, havia levantado uma rodada seed de US$ 4,3 milhões. Agora, a Terradot começa a se apresentar ao mercado como uma alternativa às startups de reflorestamento e outras climate techs que tentam ascender no ainda incipiente mercado de carbono.

Em vez de plantar árvores em pasto degradado, a Terradot adota a técnica do intemperismo acelerado. Na natureza, trata-se de processo físico e químico de desagregação e decomposição de rochas quando expostas à água e ao calor, o que permite a remoção de gases de efeito estufa no ar ao longo de séculos. Com a ação humana, é possível encurtar o processo (daí o “acelerado” do nome da técnica) para menos de uma década.

A Terradot já tem dois contratos firmados com outros nomões. A coalizão Frontier, fundada pela startup americana de pagamentos Stripe, pelo Google, pela Meta, pelo Shopify e pela McKinsey Sustentability, firmou neste ano um contrato de remoção de 90 mil toneladas de CO2 com a Terradot. O Google, diretamente, é o segundo cliente, com o pedido de remoção de 200 mil toneladas de CO2, a maior compra desse tipo realizada pela companhia de buscas na internet.

O cheque da atual rodada vai ser utilizado para contratar pessoas para cumprir os contratos e em investimentos de pesquisa e desenvolvimento.

A Terradot nasceu em dezembro de 2022 em um laboratório de biogeoquímica da Universidade Stanford, no coração do Vale do Silício, na Califórnia, pelas mãos de James Kanoff, CEO da startup, e Sasankh Munukutla. Foi a universidade americana quem fez as pontes para que os fundadores conhecessem o time de investidores e clientes do negócio. “Todos eles, de um jeito ou de outro, estão trabalhando em problemas relacionados às mudanças climáticas”, conta Kanoff ao Pipeline.

Mas o local de testes práticos é o Brasil, que tem o clima tropical propício (com altas temperaturas e umidade ideal) para o processo de intemperismo. Daí a razão para abrir a empresa também no país, com escritório em São Paulo e 13 funcionários em tempo integral (no mundo, são 26 ao todo, dos quais 15 PhDs). Aqui, a operação é liderada pela brasileira Julia Sekula, que também cursou Stanford e é a CFO do negócio.

Outro motivo pelo qual o Brasil é o candidato ideal para ser o laboratório do intemperismo acelerado é atuação do país na agricultura e na mineração, as duas indústrias essenciais para esse tipo de técnica de remoção de carbono.

A Terradot pretende utilizar o pó produzido nas minas de basalto para espalhá-lo por terrenos agrícolas. A água pluvial vai entrar em contato com essas rochas, formando os bicarbonatos que vão ser transportados para os oceanos, onde serão armazenados por séculos. Ainda, estudos da área, incluindo da Embrapa, apontam que o solo se beneficia do processo, já que os minerais agem como fertilizantes naturais nos plantios.

“Graças ao trabalho da Embrapa, o resto do mundo está comparativamente atrasado nesse assunto de rochas como uma solução para remover carbono. Há potencial para o país liderar o mundo”, diz o CEO.

De acordo com a Terradot, já foram espalhadas mais de 48 mil toneladas de rocha em 1,8 mil hectares de terras agrícolas pelo Brasil. Mas ainda não há informações sobre o quanto foi removido da atmosfera. A startup espera que esse tipo de técnica permita dar escala à captura de carbono, ao contrário do reflorestamento, com a remoção anual de 1 gigatonelada de CO2 no Brasil.

No momento, a Terradot faz toda a centralização do processo de remoção de carbono. Mas, no futuro, a startup quer oferecer apenas a tecnologia e ciência para mineradoras e nomes do agronegócio, que vão cuidar da logística e fornecimento de materiais para realizar a captura. “As indústrias já existem. Mas eles não entendem que há uma história de remoção de carbono nesses materiais. Nós queremos ser essa conexão por meio de ciência e tecnologia”, afirma a CFO… leia mais em Pipeline 12/12/2024