Tarifas dos EUA, competitividade do Brasil e o risco da retaliação a quente
No dia 2 de abril, o governo dos Estados Unidos anunciou a imposição de tarifas sobre todos os produtos importados pelos Estados Unidos, como parte de uma política industrial mais assertiva, voltada à proteção da indústria e de setores considerados estratégicos para a segurança econômica americana. Trata-se de uma mudança de postura relevante: ao contrário de tarifas pontuais contra países específicos — como se viu nas disputas comerciais com a China nos últimos anos —, essa nova rodada é universal. Afeta desde fertilizantes até bens industriais, passando por alimentos, metais e produtos eletrônicos.
A magnitude das tarifas varia significativamente. Países como China, Vietnã e Índia foram alocados em faixas superiores, com tarifas totais que podem ultrapassar os 60%. Já o Brasil, juntamente com países como Reino Unido, Austrália, Argentina e Colômbia, ficou na faixa mínima, com tarifas de 10%. Embora toda tarifa seja, por definição, uma barreira ao comércio, nesse contexto é inevitável reconhecer que o Brasil saiu comparativamente menos prejudicado. Ganhamos competitividade relativa num ambiente global mais hostil.
No entanto, a resposta política no Brasil foi imediata e previsível: vozes do Executivo e do Congresso apressaram-se em sugerir retaliações. As justificativas evocam soberania, defesa do interesse nacional e proteção do setor produtivo. Mas a retórica beligerante ignora um ponto fundamental: retaliar, neste momento, pode ser economicamente contraproducente, geopoliticamente arriscado e, talvez o mais frustrante, uma oportunidade desperdiçada de colher frutos inesperados.
Entendendo o efeito das tarifas sobre o equilíbrio de mercado
A tarifa é um instrumento que interfere diretamente na curva de oferta do mercado. Do ponto de vista do país importador, ela encarece o produto estrangeiro, deslocando a curva de oferta para cima. O novo ponto de equilíbrio — isto é, o ponto onde oferta e demanda se cruzam — passa a ocorrer a um preço mais alto e com menor quantidade transacionada. Isso significa que o consumidor americano pagará mais caro por produtos antes importados a preços mais baixos. A indústria local, por sua vez, passa a concorrer com um produto artificialmente enc
Para o país exportador — no nosso caso, o Brasil — a consequência inicial é a perda de competitividade frente ao consumidor americano. Porém, esse efeito deve ser lido com atenção. Como todos os países estão sendo tarifados, e o Brasil encontra-se no piso dessa taxação, nosso exportador perde menos competitividade relativa. Isso pode significar, na prática, manutenção ou até ganho de participação de mercado frente a concorrentes mais penalizados, o que pode mitigar ou até anular o efeito das tarifas para o produtor brasileiro.
O efeito desinflacionário das tarifas para o exportador
Um aspecto frequentemente negligenciado nos debates políticos é o efeito que essas tarifas podem ter sobre a inflação interna do país exportador. Quando a demanda externa cai (no caso, por causa da imposição da tarifa), parte da produção destinada ao mercado externo permanece ou retorna ao mercado interno. Isso eleva a oferta doméstica e reduz pressões inflacionárias, especialmente em setores como o de alimentos, carnes e grãos.
No caso brasileiro, essa dinâmica tem implicações políticas diretas. A inflação de alimentos tem sido um dos principais vetores de desgaste da popularidade do governo federal, conforme apontado por pesquisas recentes. Os preços nos supermercados têm pesado mais que qualquer narrativa sobre crescimento ou responsabilidade fiscal. Diante disso, uma medida externa que gera alívio sobre os preços sem exigir aperto monetário, corte de subsídios ou negociações legislativas seria uma benção silenciosa, por assim dizer.
Competitividade relativa e a janela de oportunidade
Vale insistir no ponto da competitividade relativa. As tarifas americanas criam uma nova hierarquia no comércio internacional: os países menos tarifados tornam-se, de forma imediata, mais atraentes para o importador americano. Isso pode afetar decisões logísticas, fluxos de investimento, contratos de fornecimento e realocação de cadeias produtivas.
Nesse novo mapa, o Brasil se encontra em posição estratégica. Em vez de enxergar as tarifas como um ataque que exige resposta imediata, seria mais inteligente reconhecê-las como uma rearrumação do tabuleiro global. E, como qualquer rearrumação, há perdedores e ganhadores. Neste momento, somos um dos menos perdedores — o que já é bastante, considerando o cenário global. E se jogarmos direito, podemos ser até ganhadores.
O risco da retaliação populista
Por isso mesmo, a ameaça de retaliação é uma jogada errada, que pode neutralizar esses benefícios. Ao vocalizar abertamente a intenção de revidar, o Brasil se arrisca a atrair atenção indesejada. Se a retaliação vier, os EUA podem se sentir autorizados a revisar sua alocação tarifária para o Brasil — afinal, não haveria mais razão para manter o país em condição privilegiada se este não reconhece o gesto ou age como se estivesse sendo injustiçado.
Do ponto de vista estratégico, o ideal seria adotar uma postura de cautela pragmática. Observar, mensurar os efeitos, e, se necessário, buscar compensações de forma discreta via canais diplomáticos ou pela via multilateral. A reação intempestiva serve apenas para consumo interno. É um gesto de sinalização política que, embora compreensível num ciclo eleitoral, não se sustenta à luz da racionalidade econômica.
Conclusão: perder ganhando
Há momentos em que perder menos já é vencer. Diante de uma rodada de tarifas globais, o Brasil foi incluído na faixa mínima de taxação. Isso nos oferece uma vantagem competitiva relativa, abre espaço para alívio inflacionário e até mesmo para atração de novos fluxos comerciais. Em vez de aproveitar esse cenário, parte da classe política prefere retomar a retórica nacionalista, ameaçando retaliar e possivelmente transformando um cenário benigno em uma disputa desnecessária..AUTOR Guilherme Ferreira – presidente institucional da JiveMauá . saiba mais Pipeline Valor 06/04/2025

