O venture capital precisa falar português
Basta gastar um pouco a sola do sapato percorrendo o quadrilátero formado pelas avenidas Rebouças, Brigadeiro Faria Lima, Juscelino Kubitschek e Marginal Pinheiros, coração financeiro de São Paulo e por conseguinte do País, para nos depararmos com uma legítima pergunta: afinal, o mercado de venture capital (VC) no Brasil amadureceu? Só que essa singela pergunta, que vem levantando a sobrancelha de banqueiros, gestores de fundo de VC, entre outros atores, é mais complexa. Porque a resposta acima é óbvia: sim, amadureceu. Mas, de fato, já se consolidou como um motor estruturado e previsível de inovação e gerador de riquezas? Eis a pergunta shakespeariana.
A verdade é que o modelo de VC foi transplantado para o Brasil a partir de uma lógica importada, muitas vezes ignorando as características do nosso ecossistema. Se nos Estados Unidos o Venture Capital nasceu no berço da Guerra Fria – período entre o pós-segunda guerra e a queda do Muro de Berlim – e se sofisticou ao longo de mais de seis décadas, aqui ele cresceu em ciclos curtos, intercalados por períodos de euforia e crises econômicas. E essa volatilidade dificulta a construção de algo robusto e resiliente, mas também abre espaço para a reinvenção do setor.
A pergunta que se impõe hoje não é se o VC deu certo no Brasil, mas sim qual modelo de VC faz sentido para um país com as nossas especificidades? O modelo norte-americano da Califórnia não se replica aqui, afinal o Brasil não tem uma bolsa eletrônica Nasdaq capaz de absorver empresas em Ofertas Públicas de Ações (OPAs) com liquidez consistente. Não possui endowments de universidades e também fundos de pensão garantindo capital de longo prazo. Tampouco possui grande número de investidores institucionais dispostos a sustentar rodadas agressivas de crescimento.
Também não nos é aplicável o modelo israelense. Caracterizado por startups com foco na internacionalização, dado a ausência de mercado local. E também por capital norte-americano e da Ásia, cujo marco temporal se deu nas últimas três décadas e em ciclos.
Então, significa dizer que estamos condenados a um VC frágil? Pelo contrário. Significa que precisamos encontrar nosso próprio caminho.
Achar essa trilha demanda deixar para trás alguns velhos hábitos. Quer um exemplo? No Brasil recentemente, a mentalidade de Venture Capital buscou unicórnios como se estivéssemos no mesmo ambiente de mercado dos Estados Unidos. E por um período muito longo. Um erro, vale frisar.
Equívoco, porque parafraseando a lógica do economista Eduardo Gianetti sobre o elogio do vira-lata, qual seja a de que o que se pede ao VC no Brasil é personalidade. Quais setores estarão no foco, tamanho do cheque de investimento, mecanismos de liquidez, prazos e outros. Porque os Estados Unidos tem DNA. Israel idem. Nós não!
Um equívoco, porque o Brasil não é um terreno fértil para a criação de novas redes sociais globais e plataformas de consumo massivo. Por exemplo, quantas empresas robustas em B2C temos no País? Uma, duas?! Por quê? Porque dependem substancialmente de muito capital para atender os custos de aquisição de clientes, sem contar a existência de uma cultura de consumo, amparada em uma pirâmide sócioeconômica muito diferente da brasileira.
O que temos, de fato, são vantagens estruturais em setores estratégicos, como mineração, agronegócio, energia, tecnologia para governos, financeiro e aeroespacial. E essas áreas não operam necessariamente no mesmo ciclo curto de retorno de investimento que se tornou objeto de desejo no VC global. Especialmente no maravilhoso mundo dos bichinhos imaginários.
Porque se o objetivo do venture capital for gerar inovação e valor de longo prazo, a leitura precisa mudar. O imediatismo é uma cilada tentadora. Empresas que estão transformando o agronegócio e a mineração, criando soluções tecnológicas para o governo e cidadãos e no segmento aeroespacial não são construídas com a mesma lógica de sites e aplicativos de consumo massificado, porque estas inovações atendem demandas críticas. E esse é um ponto onde o Brasil pode criar um modelo de VC mais alinhado com sua vocação geográfica e intelectual, transformando tais características em potencial econômico.
Na prática, a vantagem de ser um mercado emergente é que a inovação pode acontecer em setores fundamentais para o futuro da economia global. O Brasil tem potencial para continuar assumindo o papel da seguridade alimentar, ser a maior potência mundial na geração de créditos de carbono, liderar a transição energética com biocombustíveis avançados e desenvolver tecnologias para descarbonização de grandes indústrias. São áreas que já despertam o interesse de investidores internacionais, mas que ainda carecem de estruturas mais sofisticadas de financiamento e de garantias institucionais.
Como exemplo, se olharmos para os números, apenas 10% dos investimentos de VC no Brasil são voltados para teses de florestas e clima, apesar da nossa posição estratégica nesse setor. O mesmo acontece com govtechs. Apesar de o País ser o segundo mais digital do mundo e já ter um pipeline robusto de soluções tecnológicas, ainda enfrenta barreiras de adoção pelos municípios. Inimaginável e incrível.
Esses são setores que exigem um VC de longo prazo, menos dependente do hype e mais focado na construção de valor real, como o aeroespacial, a mineração, saneamento, fármacos, entre outros.
O VC deveria ser percebido como uma ferramenta importante para melhorar os fatores de incremento da produtividade da economia brasileira. Se uma inovação não virar business na economia real, aí caberia a interpretação quanto à fragilidade.
Olhando para o momento atual, a desaceleração do mercado de venture capital no Brasil tem sido usada por muitos para declarar um suposto “fracasso” do setor. Mas o fato é que crises são cíclicas, como o imobiliário em 2008 que gerou o “tsunami” financeiro no mundo, e os investimentos realizados nos últimos anos ainda estão amadurecendo – e eles são fundamentais, inclusive os aprendizados derivados deles, na construção da solidez do segmento. O VC que deu certo no Brasil não é aquele que apostou no crescimento acelerado a qualquer custo, mas sim aquele que soube ler as oportunidades estruturais do país.
O Brasil não será o próximo Vale do Silício, mas pode se tornar uma referência global em vários dos setores já citados. E para que isso aconteça, o venture capital precisa deixar de perseguir a fórmula fácil do crescimento exponencial e abraçar a construção de um ecossistema mais resiliente e adaptado à realidade do país, gerando riquezas para empreendedores e investidores.
A Faria Lima tem uma lógica própria, que em determinados cenários parece não se alinhar à complexidade dos setores que realmente movem no longo prazo a economia brasileira.
Agora, se o mercado continuar olhando para o venture capital apenas como um jogo de múltiplos suculentos e saídas rápidas, então a falsa tese de que “VC não deu certo no Brasil” continuará ecoando. Mas se a leitura for de que estamos em meio a um reposicionamento estratégico, onde inovação e longo prazo andam juntos, então estamos apenas no início de um ciclo muito mais sólido e sustentável.
O Brasil não precisa de um venture capital importado. Precisa de um venture capital que entenda e acelere as vantagens competitivas do Brasil.. Autor Renato Ramalho – CEO da gestora KPTL… leia mais em Pipeline 11/04/2025

