A nova era dos juros altos: Impactos no mercado de Fundos de Private Equity e Venture Capital
Nos últimos anos, o ambiente de juros baixos favoreceu a indústria de fundos de private equity e venture capital, alimentando um ciclo de captação robusta, valuations agressivos e expansão acelerada de portfólios. No entanto, o cenário atual aponta para um novo capítulo: a realidade de taxas de juros persistentemente elevadas.
Esse novo regime traz repercussões significativas para a dinâmica desses mercados. Se por um lado ele exige maior disciplina e seletividade dos gestores, por outro, impõe desafios à captação, desalinha expectativas entre investidores e empreendedores e recalibra as métricas de valor que sustentaram o crescimento da última década.
Pressão na Captação: Capital Mais Escasso e Mais Exigente
Uma das consequências mais visíveis da alta dos juros é a maior competição por capital. Com o retorno dos ativos de renda fixa aos holofotes — agora oferecendo yields reais atrativos e risco mais baixo — investidores institucionais têm revisto seu apetite por ativos ilíquidos e de longo prazo.
A tese da “corrida ao alternativo”, tão forte na era dos juros baixo, perde tração. Fundos de PE e VC que antes conseguiam levantar recursos com facilidade agora enfrentam um cenário em que o investidor está mais cauteloso, seletivo e exigente em relação a histórico, estratégia, e principalmente liquidez e retorno ajustado ao risco.
Com isso, muitos gestores que vinham surfando a onda de capital abundante agora precisam reformular seu discurso de captação, e em alguns casos, postergar ou até cancelar seus fundos planejados.
Seletividade e Execução: A Nova Regra do Jogo
Com menos capital disponível — e mais caro — a alocação se torna inevitavelmente mais seletiva. Fundos de VC, por exemplo, têm sido forçados a focar em rodadas mais avançadas e startups com tração comprovada. O “growth at all costs” cede lugar ao “path to profitability”.
No private equity, a diligência ganha novos contornos: teses de buy-and-build com múltiplos arbitrados se tornam mais arriscadas quando a arbitragem entre dívida barata e crescimento futuro desaparece. O foco migra para empresas com fundamentos sólidos, geração de caixa consistente e maior resiliência a cenários macroeconômicos adversos.
Nesse contexto, as gestoras com track record sólido e processos de investimento bem estruturados ganham ainda mais relevância. A execução disciplinada e o acompanhamento ativo do portfólio passam a ser não apenas diferenciais, mas pré-requisitos para justificar a alocação de capital.
A Nova Matemática dos Valuations
Talvez o impacto mais estrutural da alta de juros esteja nos valuations. A equação é simples: juros mais altos aumentam o custo de oportunidade, reduzem o valor presente de fluxos futuros e pressionam para baixo os múltiplos de entrada.
Isso tem gerado um descompasso significativo entre o valuation esperado pelos fundadores e o preço que os investidores estão dispostos a pagar.
Esse desalinhamento gera fricção no mercado: muitas rodadas são adiadas, renegociadas ou até canceladas. Startups que captaram em valuations elevados em 2020–2022 agora enfrentam down rounds ou precisam buscar alternativas de financiamento fora do mercado tradicional.
Além disso, vemos um aumento nas estruturas híbridas — como SAFEs com valuation cap mais baixo, mecanismos de clawback e mútuos conversíveis com termos mais agressivos e rodadas estruturadas com preferência líquida — como tentativa de mitigar o desalinhamento entre expectativas de fundadores e critérios dos investidores.
Descompressão do Mercado: Um Ciclo de Maturação
Apesar dos desafios, esse novo ambiente traz consigo uma oportunidade valiosa: a maturação do mercado. O excesso de capital fácil contribuiu para distorções, crescimento desordenado e, em alguns casos, alocações pouco criteriosas. O ciclo atual força uma reavaliação estratégica — o que pode beneficiar o ecossistema no longo prazo.
Empresas precisarão ser mais eficientes, focar em rentabilidade e justificar seus valuations com fundamentos reais. Gestores serão obrigados a revisar suas teses, calibrar expectativas de retorno e aprimorar sua governança. Investidores, por sua vez, voltarão a privilegiar performance consistente e alinhamento de interesses.
Nesse sentido, a retração atual pode ser vista menos como uma crise e mais como uma normalização. Não é o fim do venture capital, nem do private equity — é a transição para uma nova fase, mais sóbria, técnica e resiliente.
Considerações Finais
A alta dos juros redefine o jogo para os fundos de private equity e venture capital. Ela exige mais dos gestores, mais dos empreendedores e mais dos investidores. Impõe racionalidade onde havia euforia. Mas também abre espaço para inovação, sofisticação e excelência.
Nesse cenário, quem souber navegar com clareza estratégica, disciplina de execução e capacidade de adaptação sairá fortalecido. E, como sempre nos ciclos econômicos, é na adversidade que se constroem as melhores oportunidades de longo prazo. Autor Ricardo Bahiana é sócio fundador da B2R Capital, boutique especializada em M&A e Valuation.
Com informações da B2R Capital 20/06/2025

