Após dobrar de tamanho, Auren encaixa a última peça da AES Brasil e fecha integração em setembro
Em menos de uma década, a Auren saltou de uma pequena operação de autoprodução do grupo Votorantim para a terceira maior geradora de energia do país. E o último capítulo dessa transformação entra em sua reta final, com a conclusão das etapas críticas da integração dos ativos da AES Brasil prevista para setembro, uma aquisição de R$ 6,35 bilhões que mais que dobrou a capacidade de geração da empresa.
O negócio, anunciado em maio de 2024 e concluído no fim de outubro, mais que dobrou a capacidade instalada da Auren – de 3,6 GW para 8,8 GW. Para efeito de comparação, isso equivale a mais da metade da potência de Itaipu. O portfólio diversificado combina hidrelétrica (54% do total), eólica (36%) e solar (10%).
No próximo mês, a Auren concluirá a reestruturação das dívidas herdadas da AES Brasil. O processo envolveu a captação de R$ 14 bilhões em novos financiamentos com melhores condições, substituindo empréstimos mais caros. A operação gerou uma economia líquida superior a R$ 300 milhões para a companhia.
A partir de setembro, a empresa fará todas as integrações dos sistemas, com acompanhamento contínuo até dezembro. “As partes críticas da integração se encerram agora em setembro. Não há mais grandes projetos pendentes a partir de então”, explica o CEO Fábio Zanfelice, em conversa com o InvestNews.
Com a integração praticamente finalizada, o foco agora se volta para a desalavancagem: a companhia encerrou o segundo trimestre com dívida líquida de 4,8 vezes o Ebitda e pretende reduzir esse patamar para entre 3 e 3,5 vezes até o fim de 2028, considerado “ideal” pela gestão.
O movimento acontece num ambiente desafiador para a geração renovável, pressionado pelo avanço do curtailment — quando usinas (neste caso, solar e eólica), precisam reduzir produção por restrições de transmissão ou baixa demanda — e pela compressão de margens no mercado livre.
Sinergias avançam
A Auren superou suas próprias projeções na captura de sinergias com a AES Brasil. Entre o fechamento da operação em outubro e o fim do primeiro semestre de 2025, a companhia já capturou R$ 154 milhões, superando a meta anual inicial. Agora, a gestão projeta entregar R$ 250 milhões anuais em sinergias. No mercado, a estimativa é que ao todo, será possível capturar até R$ 1,2 bilhão.
Uma parte significativa dos ganhos vem da melhoria da eficiência operacional. Os ativos eólicos da AES Brasil operavam com disponibilidade média de 86,3%, bem abaixo dos 97% registrados nos parques da Auren. Hoje, as plantas adquiridas já operam com 92% de disponibilidade, com meta de atingir 95% até o final deste ano.
O CEO da Auren explica que os ganhos vieram rapidamente com foco maior em manutenções preventivas, em ter estoque de peças para uma reposição mais rápida e no monitoramento online dessas operações, o que não ocorria anteriormente.
O impacto financeiro é direto. “Cada ponto percentual de ativo disponível, você vai gerar mais receita. Obviamente, tem impacto importante”, lembra Zanfelice.
Do lado financeiro, a aquisição elevou temporariamente a alavancagem de 1,8x para 5,7x o Ebitda, mas o indicador já caiu para 4,8 vezes no segundo trimestre através de captações com melhores condições.
O desafio do curtailment
A conclusão da integração acontece em um momento desafiador para a geração eólica e solar. O curtailment (redução forçada da geração por limitações de escoamento ou sobreoferta) tornou-se recorrente, comprimindo as margens das geradoras no mercado livre.
No segundo trimestre, segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS), os cortes na média nacional atingiram 10,4% da geração eólica e 20,8% da solar. Para a Auren, no entanto, o impacto tem sido menor que a média do setor, de acordo com o CEO.
“A gente na média está sendo afetado menos do que a média do mercado, pela dispersão geográfica e qualidade dos ativos”, afirma Zanfelice. “E o terceiro ponto que nos ajuda é a diversificação, 54% da nossa capacidade é hidrelétrica, que não passa por isso.”
Comercialização em alta
O aumento de ativos de geração veio em boa hora para a Auren. A publicação da Medida Provisória 1300 criou uma correria de grandes consumidores atrás de contratos de autoprodução – modalidade em que empresas investem em usinas para gerar sua própria energia –, criando uma janela vantajosa para a comercialização.
“Isso gerou uma demanda adicional – muitos clientes que estavam estudando autoprodução aceleraram as negociações. Conseguimos vender praticamente toda a nossa capacidade remanescente em contratos de 15 anos”, afirma.
O resultado foi expressivo: a Auren ampliou em 53,9% a receita líquida de comercialização no segundo trimestre comparado ao mesmo período do ano anterior, chegando a R$ 1,9 bilhão, com Ebitda de R$ 128,2 milhões.
A urgência dos clientes tinha motivo. A MP 1300, publicada em 21 de maio, estabeleceu que após 60 dias de sua publicação, o modelo de autoprodução só poderia ser feito com ativos novos, não mais com usinas existentes. A medida provisória tem prazo de 60 dias para ser aprovada pelo Congresso — prorrogáveis por mais 60 dias até agosto — e se não for convertida em lei, perde eficácia.
Novos projetos
Caso a MP seja mantida, haverá uma complexidade adicional para as empresas do setor: assumir novos projetos em uma fase de custo de capital mais alto com preços de energia mais baixos.
“O que vai direcionar o preço da energia a longo prazo é o custo marginal de expansão – aquele preço necessário para construir novos projetos”, lembra Zanfelice. “Sempre teve gente no mercado achando que os preços serão baixos eternamente. Agora, já existe o entendimento que ele não será baixo eternamente.”
Para o executivo, a lógica é simples: sem novos investimentos em geração, a demanda crescente vai diminuindo a margem do sistema até que os preços de curto prazo subam o suficiente para tornar os contratos de longo prazo mais atraentes novamente.
Diante desse cenário de transformação, Zanfelice enxerga oportunidades em tecnologias que podem transformar o setor. A tecnologia de baterias pode ser especialmente valiosa para uma empresa com forte presença em fontes intermitentes como eólica e solar.
Quando essas fontes geram energia em excesso — justamente quando ocorre o curtailment — as baterias poderiam armazenar a produção para disponibilizar nos momentos de maior demanda e melhores preços.
“A gente está estudando capacidade, flexibilidade, que é a palavra-chave do sistema. Bateria é uma das tecnologias que vão agregar flexibilidade ao sistema”, acrescenta. “Nosso time está estudando a possibilidade de entrar no negócio de baterias. É uma oportunidade importante para a gente.”
Do zero aos 8 GW
A Auren como conhecemos hoje começou há dez anos, em 2015, quando Zanfelice assumiu a Votorantim Energia com um portfólio concentrado em autoprodução e nenhuma operação relevante no mercado. “Quando cheguei, o mandato era transformar a empresa numa empresa de energia voltada para o mercado”, relembra o executivo.
Ao longo da década, o grupo liderou uma série de movimentos estratégicos que aconteceram sempre em momentos peculiares da economia brasileira, como a crise de 2015. A aquisição da Cesp, em particular, foi um teste de fogo para a capacidade de integração da equipe.
“A Cesp valia R$ 4,5 bilhões e tinha entre R$ 12 e 13 bilhões de contingências. Tinha mais passivos do que valia a companhia”, relembra o CEO. A experiência de reestruturar uma empresa em situação tão complexa se tornou importante para a … leia mais em InvestNews 14/08/2025

