Presidente da ABES afirma que IA tem grande potencial em setores como mineração, petróleo & gás e governo digital, mas enfrenta desafios em infraestrutura, profissionais e marco legal.

Na nova entrevista da série especial O Futuro da IA no Brasil, vamos conversar hoje (26) com Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES). O executivo avalia que o Brasil está em posição estratégica para se tornar um player global em IA aplicada em setores estratégicos, como mineração, petróleo & gás, agronegócio e governo digital. Contudo, apesar do potencial, o país ainda enfrenta desafios em infraestrutura, formação de profissionais e regulação, que podem limitar investimentos e adoção da tecnologia.

Como você vê o papel do Brasil no mercado global de IA hoje e qual deve ser o peso do país nesse setor nos próximos anos?

O Brasil vive um momento estratégico na adoção de inteligência artificial. Segundo o estudo “Transformação Empresarial: Inovação Tecnológica, seu Uso e os Impactados na Indústria Brasileira”, realizado pela ABES em parceria com a IDC, a IA e a IA generativa já estão sendo integradas em setores como governo, finanças, varejo, agronegócio e saúde. O país ainda está em um estágio moderado de desenvolvimento, mas a maioria das empresas planeja aumentar significativamente seus investimentos em TI e IA nos próximos anos, sobretudo em IA aplicada.

“O Brasil pode ser uma potência global no que tange ao desenvolvimento de IA aplicada aos setores nos quais tem vocação e liderança global, como mineração, petróleo & gás, agronegócio, saúde, financeiro, governo digital, entre tantos outros que já somos campeões.”

Já no que tange à IA de base, em especial ao desenvolvimento de modelos de IA, embora o país ainda esteja bem atrás dos líderes globais (EUA, China e Europa), já começamos a ver algumas empresas desenvolvendo modelos locais. O caminho é longo, mas é importante que tenham segurança jurídica, apoio governamental e um ambiente de negócios favoráveis.

Em outra frente, o Brasil também pode ser um grande player global no que diz respeito ao processamento de IA, em especial o treinamento de modelos de IA. É sabido que os principais players hoje estão com dificuldades com sua matriz energética, tanto pela falta de energia em escala quanto pela alta pegada de carbono das suas matrizes energéticas. O Brasil hoje tem um excedente de 18GW na geração de energia, com uma matriz que tem 89% de energia renovável.

Pode ser um grande celeiro para a instalação de data centers verdes destinados ao treinamento de IA, tanto para o exterior quanto internamente. Se no passado os data centers eram intensivos em uso de água para resfriamento, hoje esse gap já foi equacionado por meio de circuitos fechados, reutilização da água e uso de outras técnicas de resfriamento mais ambientalmente sustentáveis.

O que ainda falta para o Brasil avançar mais nesse mercado e aproveitar plenamente as oportunidades atuais?

Apesar do avanço, o estudo da ABES com o IDC aponta que muitas empresas ainda estão nos estágios iniciais da exploração da IA generativa, sem estratégias claras de verticalização. Isso mostra que precisamos evoluir em três frentes:

  1. Infraestrutura e integração de sistemas – modernizar para suportar soluções avançadas;
  2. Capacitação de profissionais – reduzir a lacuna de mão de obra qualificada;
  3. Ambiente regulatório e estímulo à inovação – garantir segurança jurídica e políticas de incentivo, principalmente para pequenas e médias empresas.

“O anúncio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA 2024-2028), com investimentos previstos de R$ 23 bilhões, é um passo relevante. Mas é preciso acelerar na sua implementação.”

Do mesmo modo, também é importante que se tenha maior articulação entre os órgãos governamentais nessa frente. Por isso, a ABES tem trabalhado com o governo para que se avance com celeridade na implementação do Comitê Interministerial de Transformação Digital (CitDigital).

Do mesmo modo, é muito relevante que a Câmara dos Deputados reveja o PL 2338 que regula a IA no Brasil. Para não me delongar, cito dois problemas essenciais desse projeto. Vemos com muita preocupação os artigos 46 e 47 que criam competência para que a ANPD regule setores que não tenham agências regulatórias. Ora, nossas empresas já são reguladas quando vendem produtos ou serviços para os setores regulados, como o setor financeiro (Bacen), saúde (Anvisa), telecomunicações (Anatel). Não faz sentido essas empresas serem duplamente reguladas. Isso gera sobreposição regulatória e pode dificultar a adoção da IA no Brasil. Mesmo aquelas empresas que vendem para o consumidor final também são reguladas no âmbito do Código de Defesa do Consumidor e pelo sistema Senacon-Procons, assim como pela própria ANPD, quando houver dados pessoais envolvidos.

Outro problema do Projeto de Lei é a regulação da tecnologia ao invés de regular o seu uso. Entendemos que é ineficiente regular uma tecnologia específica. E o PL propõe todo um capítulo destinado a regular IAs generativas que, no nosso entendimento, tem potencial para inviabilizar o desenvolvimento de IA local ou até mesmo investimentos externos em localização de IAs por meio de treinamento de modelos globais em língua portuguesa e cultura brasileira para atender melhor os usuários brasileiros.

“A proposta, como está hoje, por exemplo, colocaria o Brasil como o modelo mais restritivo no mundo no que diz respeito ao uso de direitos autorais para o treinamento de modelos de IA; afetando tanto LLMs quanto SLMs, setores público e privado, assim como com um amplo efeito em cadeia para pequenas e médias empresas.”

No que tange à infraestrutura, é importante que se avance com celeridade em políticas de estímulo para mais investimentos em data centers, tanto para IA quanto para soluções locais. Estamos acompanhando com muita atenção as iniciativas do governo em torno do Redata para que tenhamos políticas de estímulo para esse setor tão fundamental para o país.

Quais são os maiores desafios na formação de profissionais para atuar com IA no país e como superá-los?

Um dos principais pontos destacados pelo estudo é a escassez de mão de obra qualificada como barreira à implementação de IA. A demanda por cientistas de dados, engenheiros de machine learning e especialistas em governança digital cresce mais rápido do que a formação de novos talentos.

“Para superar esse desafio, precisamos investir em programas de requalificação de profissionais de outras áreas, aproximar universidades e empresas para alinhar currículos às demandas reais do mercado e estimular o ensino de competências digitais desde a educação básica. Essa é a única forma de criar escala e sustentar o crescimento da economia digital.”

Além disso, é preciso que se atente à importância do ensino técnico no nosso país. A massificação da adoção da IA, em especial criação de aplicações de IA aplicadas, vai exigir cada vez mais profissionais que tenham competências cruzadas, tanto em IA quanto nos setores específicos. E aqui os cursos técnicos e de curta duração terão um papel essencial.

Quais são as principais iniciativas que sua associação está desenvolvendo atualmente para contribuir com o setor de IA?

Na ABES, temos atuado em várias frentes além das que já mencionamos na segunda pergunta:

  1. Estudos estratégicos: além de relatórios anuais sobre inovação, o mais recente, “Transformação Empresarial”, trouxe um mapeamento inédito sobre o impacto da IA na indústria brasileira, orientando empresas e formuladores de políticas públicas.
  2. Advocacy regulatório: participamos ativamente das discussões sobre o marco legal da inteligência artificial, defendendo uma regulação equilibrada, que fomente inovação e proteja cidadãos.
  3. Capacitação e ética digital: promovemos iniciativas de formação em governança de dados, segurança e uso responsável de tecnologias emergentes.

Nosso papel é apoiar o ecossistema de software para que a IA seja não apenas vetor de competitividade, mas também de inclusão e desenvolvimento sustentável… leia mais em IA Brasil Notícias 26/08/2025