A Ibérdrola, controladora da Neoenergia (NEOE3) anunciou a proposta de oferta pública de aquisição (OPA) dos papéis da companhia o que, na prática, significa mais uma empresa fechando capital na B3. Mas a companhia não está sozinha no ‘adeus’: de instituições financeiras à varejo, mais de 30 papéis deixaram de ser negociados na bolsa brasileira do início de 2023 até agora, sendo nove somente em 2025, segundo um levantamento da Elos Ayta Consultoria.

Sem IPO (ofertas públicas iniciais) há quase quatro anos, a B3 vive um momento delicado: além de não atrair novas companhias para abertura de capital, parte das que estão se despediram nos últimos anos.

Os motivos para isso foram variados e nem todo mundo ‘pulou’ do barco de vez. A BR Malls se fundiu com a Aliansce Sonae, criando a Allos. Já Marfrig e a BRF fizeram fusão este ano, enquanto a gigante frigorífica JBS transferiu as ações para Nova York.

Confira quem saiu desde 2023:

Mercado à vista – canceladas

  • Empresa Código Data da última cotação
  • Santos Brasil STBP3 02/10/2025
  • BRF BRFS3 22/09/2025
  • GP Invest GPIV33 11/08/2025
  • Eletromidia ELMD3 12/06/2025
  • JBS JBSS3 06/06/2025
  • Carrefour BR CRFB3 30/05/2025
  • Eletropar LIPR3 27/05/2025
  • Kora Saude KRSA3 14/04/2025
  • Clearsale CLSA3 01/04/2025
  • Brisanet BRIT3 04/12/2024
  • AES Brasil AESB3 31/10/2024
  • Alper S.A. APER3 03/09/2024
  • Cosern CSRN3 29/08/2024
  • Cielo CIEL3 26/08/2024
  • Enauta Part ENAT3 31/07/2024
  • Grupo Soma SOMA3 31/07/2024
  • Dmfinanceira DMFN3 12/07/2024
  • Pomifrutas FRTA3 17/04/2024
  • Alfa Invest BRIV4 28/03/2024
  • Alfa Consorc BRGE3 27/03/2024
  • Alfa Financ CRIV4 27/03/2024
  • Seg Al Bahia CSAB3 05/01/2024
  • Sinqia SQIA3 01/11/2023
  • BR Propert BRPR3 19/10/2023
  • Saraiva Livr SLED3 04/10/2023
  • Energias BR ENBR3 21/08/2023
  • Boa Vista BOAS3 07/08/2023
  • Modalmais MODL3 30/06/2023
  • IGB S/A IGBR3 06/06/2023
  • Ihpardini PARD3 28/04/2023
  • BR Malls Par BRML3 06/01/2023
  • Dommo DMMO3 06/01/2023
    Fonte: Elos Ayta Consultoria

Na avaliação de Fernando Siqueira, chefe de análise da Eleven, o motivo principal para isso é o valuation (avaliação, pelo mercado, de quanto vale a empresa inteira refletida no preço das ações) baixo, tendo em vista que, na visão do especialista, o principal ponto para manter o capital aberto é ter uma fonte alternativa de recursos e captar dinheiro no mercado por meio da emissão de ações.

Isso só faz sentido, porém, se os investidores estiverem dispostos a pagar um preço razoável por essas ações. “Ultimamente, temos visto, dado que o valuation está muito baixo e o mercado está em uma fase ruim, apenas empresas muito endividadas, que estão realmente necessitando de capitalização, têm emitido ações”, pontua Siqueira.

Ele destaca que “muitas dessas empresas de fora veem esse cenário e acreditam que faz mais sentido recomprar as ações e fechar o capital”, como está acontecendo com a Neoenergia e como ocorreu recentemente com o Carrefour, descreve o chefe da Eleven.

Já André Neves, sócio de mercado de capitais e banking do BZCP e doutor em Direito Comercial, embora não considere o atual cenário como um fenômeno, pontua que algumas empresas estão optando por abrir capital lá fora em razão da liquidez de mercados externos. “Empresas de tecnologia, por exemplo, têm listado na Nasdaq. Outras companhias, incluindo grupos brasileiros com gestoras ou controladores fortes, também têm preferido abrir capital lá fora”, diz ele.

“E isso faz sentido por alguns motivos: primeiro, a liquidez maior; segundo, o fato de as empresas de tecnologia já terem um histórico mais conhecido nesses mercados, o que tende a trazer valuations melhores — e esse acaba sendo um dos principais fatores que pesam na decisão”, comenta Neves.

Na prática, existe um mercado de empresas de tecnologia com empresas listadas nos Estados Unidos, que não existe no Brasil. Com isso, lá fora já existe, por exemplo, um padrão de o que é múltiplo de faturamento, de negociação, o que é valuation do IPO com base em outros precedentes. “No Brasil, como tem menos empresas de tecnologia listadas, tem menos comparativos, o que torna mais difícil a precificação e que acaba, normalmente, precificando por baixo na falta de informação”.

Segundo Neves, existem também elementos regulatórios, como regras de direito societário e de governança corporativa, que são mais testadas em alguns mercados externos. Mas, no geral, o ponto central é a combinação entre liquidez e avaliação de mercado (valuation).

Por outro lado, tendo capital na B3, há o benefício de acessar mais investidores locais, especialmente aqueles que não têm conta global nem investem em dólar. Além disso, ele ressalta que os segmentos de listagem da B3 oferecem um selo de governança relevante, o que também é uma vantagem de se ter capital aberto no Brasil.

Mas, nem tudo está perdido: na visão de Siqueira, essa debandada atual é o “final desse movimento”.

“A bolsa está subindo, o valuation está ficando mais atrativo, e começa a não fazer muito sentido também fechar o capital se essa avaliação ficar mais alta. Pelo contrário. Daqui a pouco é possível que algumas empresas inclusive voltem a abrir capital aqui no Brasil. Provavelmente isso deve acontecer no ano que vem”, diz Siqueira… leia mais em Valor Investe 24/11/2025