Para Magnus Montan, do HSBC na China, investidor asiático vai se concentrar no mercado consumidor brasileiro

As duas primeiras ondas foram de exploração de recursos naturais e manufatura de bens de capital

Diante da crise na Europa e da desaceleração nos Estados Unidos, uma terceira onda de empresas chinesas se prepara para entrar com força no Brasil, de olho no mercado doméstico do país.

Essa é a previsão de Magnus Montan, chefe de Negócios Internacionais do banco HSBC na China e grande conhecedor das relações entre o Brasil e o gigante asiático.

Na primeira onda, vieram empresas focadas em extração de recursos naturais; depois, as voltadas para manufatura de bens de capital. Agora, começam a se expandir as empresas de manufatura de bens de consumo, como eletrodomésticos.

Abaixo, trechos da entrevista com Montan e Anderson Au, chefe da área de multinacionais chinesas na América Latina do HSBC.

Folha – Qual é o perfil das empresas chinesas que estão vindo agora para o Brasil?
Magnus Montan – A primeira geração de empresas chinesas que vieram estava comprando matérias-primas; a seguinte era de companhias querendo vender para o mercado doméstico brasileiro.

Dentre elas, houve uma primeira onda de empresas de manufatura de bens de capital, como a XCMG e Sany, de máquinas pesadas.

A terceira onda é de empresas que fabricam bens de consumo, como eletrodomésticos. Estamos aqui com um grupo de oito empresas, a metade está atrás de recursos naturais, a outra metade mira o mercado consumidor brasileiro. Entre elas, está uma empresa de linha branca.

São empresas cujas marcas não são conhecidas fora da China. A mesma coisa aconteceu com o Japão e a Coreia 30 anos atrás.

Das chinesas, a Gree, de ar condicionado, já está aqui, e a Haier está associada à H-Buster. Marcas que não são conhecidas no Brasil adquiriram marcas locais: como a Midea, que comprou 51% da Carrier América Latina.

Qual é o impacto da crise na Europa e da desaceleração nos EUA, tradicionais mercados da China, sobre os negócios chineses com o Brasil?

Empresas chinesas vão fazer mais negócios com países em desenvolvimento, em particular o Brasil, porque elas estão subindo na cadeia de valor, procurando novos mercados para montar a distribuição e a venda de seus produtos.

E, por causa do que está ocorrendo na Europa e nos EUA, está mudando o perfil de saída das empresas chinesas.

O Brasil é uma economia que cresce muito, com grande mercado consumidor. Então, os chineses querem estar aqui, seja para vender equipamentos de telecomunicações ou transportes.

Mesmo assim, Europa e EUA ainda têm grandes mercados domésticos. E, embora os emergentes tenham ganho destaque, os chineses buscam também adquirir tecnologias e marcas -como na compra da IBM pela Lenovo e da Volvo pela Geely.

As montadoras chinesas protestaram contra o aumento do IPI sobre carros e as exigências de nacionalização. Na China, ainda existem muitas regras de conteúdo nacional mínimo?

Anderson Au – Na China, existe não apenas exigência de conteúdo nacional mas também se proíbe que estrangeiros sejam proprietários em alguns setores. Montadoras, por exemplo, precisam ter sócio chinês. Mas em muitos setores a China eliminou as restrições e exigências. Por Patricia Campos Mello
Fonte:FolhadeSP07/11/2011