Após compra da Intelsat, SES se prepara para integrar órbitas LEO e MEO
A operadora de satélites SES viveu dois avanços importantes em sua estratégia nas últimas semanas: a conclusão da compra da Intelsat, que resultou na prática na fusão de duas das maiores empresas de satélite do mundo, e o lançamento de mais dois satélites de sua constelação de órbita média (MEO), O3b mPOWER. Com isso, a empresa acredita que avança passos importantes para ampliar a sua capacidade competitiva em um mercado cada vez mais desafiador.
Nesta entrevista concedida por Omar Trujillo enquanto ele ainda estava na posição de VP de vendas para as Américas, o executivo fala sobre os avanços da estratégia do mPOWER, do processo de transição para a nova empresa combinada e as oportunidades que se abrem com a integração de SES e Intelsat.
Na conversa, Trujillo também explica a transição na qual assumirá a posição de responsável pela posição de vendas no segmento de redes para América do Norte das duas empresas combinadas, enquanto Ricardo La Guardia assume a mesma posição, mas para a América Latina.
Depois de muitos anos olhando a América Latina pela SES e tendo participado desde o começo do desenvolvimento da constelação O3b, você agora será responsável pela América do Norte. Como será essa transição?
Omar Trujillo – Sim, estarei focado na América do Norte, enquanto Ricardo La Guardia [que vem da Intelsat] cuidará da divisão de redes na América Latina para a nova empresa. Ambas as regiões têm suas particularidades e oportunidades e será um grande desafio para nós. Na América do Norte, estamos focados em expandir nossa presença. Na América Latina, há muita necessidade de conectividade em áreas remotas e governo. E o mPOWER é parte importante da estratégia nos dois casos.
Vocês lançaram recentemente mais dois satélites da constelação O3b mPOWER. Faltam três para a constelação estar completa. Qual o foco do serviço, falando agora especificamente da América Latina?
A constelação O3b mPOWER é parte da nossa estratégia para oferecer conectividade de alta capacidade e baixa latência em regiões onde a infraestrutura terrestre é limitada. Atualmente, estamos fornecendo serviços no Brasil com a nova geração, já temos links em operação na Amazônia e em Fernando de Noronha, e estamos expandindo para outras áreas como a Ilha de Páscoa e Galápagos. Os dois novos satélites estão em fase de testes. Nos próximos meses, eles serão integrados à constelação, o que aumentará nossa capacidade de throughput e melhorará a cobertura. No entanto, ainda estamos ajustando alguns aspectos técnicos para garantir que a integração ocorra sem problemas. É um processo contínuo de adaptação e aprendizado.
Quais são os principais casos de uso para a constelação O3b mPOWER atualmente?
Usamos a constelação mPOWER principalmente com operadoras de telecomunicações para backhaul e backbone, especialmente em locais remotos que precisam de conectividade confiável. É uma solução de baixa latência e alta capacidade com um SLA [nível de serviço] robusto, o que não se encontra em qualquer solução de satélites. No setor marítimo, também há aplicações relevantes, como em cruzeiros, onde a conectividade é essencial para a experiência dos passageiros. Além disso, estamos expandindo para comunicações offshore no Brasil, um mercado importante para nós, onde já oferecemos serviços com o O3b Classic [primeira geração da constelação de órbita média] e agora estamos introduzindo o mPOWER. Hoje, contudo, o cenário competitivo é bastante agressivo.
Você se refere certamente às constelações Starlink e OneWeb, de órbita baixa. Como diferenciar o mPOWER e integrar a capacidade da OneWeb que vocês recebem da Intelsat?
Nossa principal diferenciação é a capacidade de oferecer soluções multi-órbita, que combinam satélites LEO, GEO e MEO. Isso nos permite adaptar nossos serviços às necessidades específicas de cada cliente. Podemos oferecer serviços com garantias de SLA para aplicações críticas, o que é um grande diferencial em setores como energia e defesa. E também há aposta em soluções de conectividade de ponta a ponta, cuidando de toda a infraestrutura até o cliente final, o que nos permite oferecer um serviço mais integrado e confiável. No entanto, estamos cientes de que o mercado está mudando rapidamente e precisamos continuar inovando para manter nossa posição. E agora, com a Intelsat, incorporamos a oferta dos serviços LEO da OneWeb, que até então não tínhamos.
Na prática, como tem sido o processo de integração de diferentes serviços em diferentes órbitas?
É um desafio, mas a integração entre as diferentes órbitas está progredindo rapidamente. Em muitos casos, podemos operar LEO e GEO na mesma rede, dependendo das necessidades específicas. Alguns sites podem operar apenas em LEO, enquanto outros podem usar GEO como backup. Estamos descobrindo e implementando soluções à medida que avançamos. Mas essa integração é complexa e requer um esforço contínuo de nossos times de produtos e engenharia.
Você vê espaço para uso de constelações MEO para políticas públicas e governos na América Latina? Aparentemente, o foco está em satélites LEO.
De fato, há um interesse crescente dos governos em soluções de soberania e inclusão digital. Na América Latina, os projetos tendem a combinar inclusão digital com requisitos de segurança. No Brasil, por exemplo, temos visto esforços para integrar conectividade digital com algumas necessidades de defesa. Estamos fornecendo conectividade para projetos governamentais e explorando parcerias para expandir essas soluções. Além disso, estamos trabalhando para integrar nossas capacidades com iniciativas como o Iris², que é um projeto europeu que visa fortalecer a infraestrutura de conectividade soberana e que integra MEO e LEO. De modo geral, ainda há desafios a serem superados, especialmente em termos de coordenação com diferentes governos e suas prioridades.
Como enxergam as oportunidades na conectividade direta a dispositivos (D2D) ou redes não-terrestres?
É uma parte importante da nossa estratégia. Fizemos investimentos em empresas como a Lynk para explorar essas oportunidades. A constelação mPOWER nos permite, por exemplo, facilitar comunicações entre satélites LEO e nossos teleportos, acelerando a penetração de serviços D2D. Isso significa que podemos oferecer uma infraestrutura robusta para viabilizar justamente os serviços D2D, para que estes serviços sejam implementados de forma mais eficiente, sem a necessidade de construir uma infraestrutura terrestre extensa. No entanto, ainda estamos no início dessa jornada e há muitos aspectos técnicos e regulatórios que precisamos endereçar.
Após a aquisição da Intelsat, o que podemos esperar em termos de novas possibilidades para a SES?
A aquisição da Intelsat nos permite combinar o melhor das duas empresas, fortalecendo nossa cobertura GEO e acesso a múltiplas fontes de LEO. Vale lembrar que eles também haviam feito um investimento importante na Lynk e são grandes usuários da capacidade da OneWeb. Isso nos posiciona melhor para investir em inovação e continuar oferecendo serviços relevantes no futuro. Combinando nossos ativos, teremos uma cobertura global mais robusta e uma capacidade de investimento mais forte. No entanto, a integração das duas empresas é um processo que ainda leva um tempo e estamos trabalhando para garantir que isso ocorra de forma suave e eficaz… leia mais em teletime 08/08/2025

