Após vender duas startups, ele criou uma nova solução para compra e venda de celulares usados que atraiu investidores
Esta é a terceira jornada de Fernando Montera Filho como empreendedor. À frente da Doji — plataforma que conecta quem quer vender e comprar celulares usados — ele acaba de captar US$ 2 milhões (cerca de R$ 11 milhões), anúncio que PEGN noticia em primeira mão.
A startup se conecta a operadoras e redes varejistas para chegar aos clientes finais que desejam dar seus celulares usados como parte do pagamento de um aparelho novo e depois intermedeia a venda desses aparelhos antigos a quem pretende revender ou usar partes. O conceito não é inédito, mas a adesão não é fácil no Brasil. “Fizemos pesquisas para entender por que as empresas não vendiam. Ou [as empresas] reclamam porque na venda direta entre consumidores [C2C] é preciso tirar foto, descrever o produto e tem muitos golpes, ou o preço do desconto nos programas oficiais é pequeno porque é um modelo com intermediários”, aponta o fundador.
A Doji desenvolveu, então, uma tecnologia para avaliar o celular velho a partir do escaneamento de um QR Code. O método verifica mais de 70 pontos diferentes no telefone, e cada falha impacta no valor final. Após o diagnóstico, a plataforma envia um laudo aos compradores registrados, que já indicaram previamente quanto estão dispostos a pagar por cada modelo. A startup então coleta o aparelho na loja e entrega para o comprador.
Atualmente, a Doji não cobra mensalidade para que a tecnologia seja utilizada – para não criar atrito na expansão da oferta de celulares –, e monetiza com a taxa de intermediação.
A ideia para o negócio surgiu quando Montera Filho desejou trocar de carro. Ao visitar uma concessionária, ele foi surpreendido pelo valor oferecido pelo veículo. “Eu entendi que precificaram depois de anunciar em grupos de repassadores e achar um cliente final. A cadeia tem vários intermediários e eu receberia muito menos do que poderia. Depois de isso ficar claro, eu comecei a olhar para outros mercados que operam de forma similar”, recorda.
Ao perceber que o segmento de automóveis usados já estava saturado, decidiu apostar no mercado de celulares. Segundo ele, estima-se que haja quase US$ 1 trilhão em eletrônicos parados em domicílios, em condição funcional.
De terceira viagem
Montera Filho começou a empreender quando estudava engenharia naval na Universidade de São Paulo (USP), em 2011, época em que o ecossistema de startups ainda estava começando no Brasil. “Não era bonito ou glamouroso. Era pela paixão de criar algo do zero. Aprendemos a demitir, a contratar, a cuidar de cultura”, relembra.
A Becommerce, integradora de marketplaces que conectava e-commerces a plataformas, foi vendida em 2017 para o Mercado Livre, porque, segundo o fundador, chegou a um gargalo de crescimento. Foi durante a passagem de quatro anos no Mercado Livre que ele teve a ideia original para a Doji, que só sairia do papel muito tempo depois.
Mas antes da Doji veio a Hubster, que digitalizava operações de restaurantes para apps de delivery e tinha a ambição de alcançar um mercado maior do que a Becommerce. Capitalizados da saída, os sócios investiram para o crescimento do negócio e chegaram a encontrar fundos engajados com a tese, mas tinham pouco conhecimento sobre venture capital. Ainda era outro momento do ecossistema e era comum ouvir histórias ruins sobre a troca entre empreendedores e investidores. Eles optaram por vender a empresa, apesar do potencial do mercado, para a norte-americana CloudKitchens.
“O que eu trouxe da combinação das duas para a Doji é que eu queria uma empresa com ambição global, com mercado gigantesco, viés de impacto significativo para beneficiar a sociedade, e que tivesse venture capital no meio da equação”, conta. O empreendedor inclusive começou a investir como pessoa física e chegou a ocupar o cargo de vice-presidente da rede Poli Angels.
Pré-pivotagem
Tentando descobrir o que fazer após as duas saídas, Montera Filho foi fazer um MBA na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ainda sob vigência de um acordo de não competição com o Mercado Livre, ele decidiu se aprofundar na tese da Doji ao lado de dois colegas ingleses que também tinham experiência empreendedora. A startup saiu do papel em 2021, com a crença de que a fundação no Reino Unido ajudaria na aspiração global.
Em sua versão original, a Doji era um marketplace que conectava quem queria comprar celulares usados com quem gostaria de vender os aparelhos, sem intermediários. A startup tracionou e captou uma rodada seed de US$ 3 milhões, liderada por Canary. Mas em 2023, quando o brasileiro voltou ao mercado para levantar a Série A, encontrou resistência dos investidores.
“Marketplace tem um custo de aquisição de clientes (CAC) alto, especialmente no pós-pandemia. Era uma tese intensiva em capital. Nós criamos um bom funil de conversão, a operação era financeiramente viável, mas precisaríamos de mais rodadas para continuar crescendo. Passei 2023 quase inteiro tentando captar, tivemos resposta positiva para 40% do total da rodada, mas estava condicionado a um fundo líder que não encontramos”, conta.
Para salvar o negócio, Montera Filho decidiu desligar as operações na Inglaterra e vir para o Brasil – por lá, havia competição forte com a Backmarket, startup que levantou mais de US$ 1 bilhão em aportes, enquanto no Brasil havia uma demanda enorme de aparelhos por parte dos players de usados, como revendedores, assistências técnicas e seguradoras. “Entendemos que precisávamos criar uma forma conveniente para devolver os celulares para circulação, tornar os eletrônicos usados em moeda de troca para gastar em qualquer lugar”, aponta.
Nova fase
A Doji encerrou a operação na Inglaterra nos primeiros dias de janeiro de 2024. Com o desligamento de boa parte da equipe, Montera Filho voltou a programar para criar o novo modelo em fevereiro, apostando que o novo formato não repetiria o problema do CAC alto. Em maio, a startup diz que já gerava receita com os primeiros contratos no Brasil.
Um ano depois, a startup consolidou a decisão pela pivotagem com um novo investimento com a participação de Raio Capital, Norte Ventures, Positive Ventures, Niu Ventures, Seedstarts e Exit North Ventures. O objetivo é expandir o negócio em pontos de contato e linhas de receita – a Doji está lançando produtos de antecipação financeira e financiamento para os compradores.
Montera Filho estima que dentro de um ano a Doji capte a sua Série A, mas que atinja o ponto de equilíbrio antes disso. Com 25 pessoas na equipe, a empresa cresce, em média, 35% ao mês. “Todas as startups passam por momentos difíceis. A resiliência não é suficiente, mas é condição necessária. Se você quiser começar a empreender, saiba que terá perrengues para vencer”, finaliza… leia mais em pegn 25/06/2025

