Atlantic Fish Co capta US$ 1,2 mi para avançar em regulamentação e lançamento de frutos do mar cultivados
Com o objetivo de realmente provocar mudanças no mercado global de pescados, avaliado em cerca de US$ 400 bilhões, a Atlantic Fish Co acaba de conquistar um novo aporte para acelerar o desenvolvimento de seus peixes brancos cultivados de alto valor.
A startup, sediada na Carolina do Norte (EUA), recebeu investimento seed de fundos como Katapult Ocean, Alwyn Capital, DMV Capital e da Georgetown Angel Investment Network, além de um financiamento de US$ 305 mil por meio do programa Small Business Innovation Research (SBIR) da National Science Foundation.
No total, a empresa captou US$ 1,2 milhão nesta rodada, somando US$ 2,3 milhões captados até o momento. O novo capital será direcionado para avanços técnicos, regulamentares e de comercialização.
“Esses recursos nos permitem finalizar nosso produto de entrada no mercado e conquistar as aprovações necessárias para o lançamento nos Estados Unidos”, afirma Doug Grant, cofundador e CEO da Atlantic Fish Co.
“Não dá para criar mais oceano”
Fundada em 2022 por Grant e pelo diretor científico Trevor Ham, a Atlantic Fish Co desenvolveu uma plataforma de cultivo celular aplicável a diferentes espécies, já validada tanto com proteínas marinhas quanto terrestres. O foco inicial está em peixes brancos de alto valor, especialmente o black sea bass (ou robalo-preto).
O processo começa com a coleta de uma pequena amostra de tecido muscular do peixe. A partir dela, são selecionadas as células mais saudáveis, que crescem em um meio nutritivo de grau alimentício — similar ao que encontrariam dentro do próprio peixe —, formando músculo magro em um biorreator. O resultado são filés de qualidade gastronômica, livres de contaminantes comuns nos frutos do mar convencionais, como mercúrio, microplásticos, antibióticos e parasitas.
Em 2024, a startup apresentou seu primeiro protótipo de robalo-preto em parceria com o North Carolina Food Innovation Lab, durante um evento de degustação realizado em Kannapolis.
A proposta da empresa chega em um momento crítico para o setor: cerca de 90% dos estoques pesqueiros mundiais estão em limite máximo de exploração ou sobrepesca. Pesquisas indicam que, se o ritmo atual continuar, o colapso total da vida marinha pode ocorrer até 2048. Além disso, as mudanças climáticas agravam o cenário, deslocando espécies para águas internacionais — onde o controle é menor —, ampliando o risco de doenças e elevando os preços.
“Estamos enfrentando um problema gigantesco. O oceano está sob enorme pressão”, diz Grant. “Podemos criar muitas coisas, mas não dá para criar mais oceano.”
O comportamento do consumidor também reflete essa preocupação. Segundo pesquisa de 2024 do Marine Stewardship Council, 30% das pessoas reduziram o consumo de frutos do mar nos últimos dois anos; 48% afirmaram estar preocupadas com a sobrepesca, e 35% com os impactos das mudanças climáticas. Mais de 80% dos entrevistados mudaram seus hábitos alimentares no período — e 43% o fizeram por motivos de sustentabilidade.
Avanço regulatório e parcerias com chefs
Para Sam Selig, gestor de investimentos da Katapult Ocean, o desempenho técnico da Atlantic Fish Co e o avanço de sua tecnologia foram fatores decisivos para o investimento.
“Apoiamos o início da comercialização do filé sustentável de peixe branco da empresa e sua visão de expandir para outras proteínas. Isso está totalmente alinhado com nossa missão de fomentar alimentos azuis (‘blue foods’) que gerem impacto positivo nos oceanos e na saúde”, destaca.
Embora o valor de US$ 1,2 milhão possa parecer modesto, o feito é expressivo diante do cenário atual: os investimentos em carnes cultivadas caíram drasticamente — de US$ 1,3 bilhão em 2021 para apenas US$ 139 milhões em 2024, e cerca de US$ 36 milhões até o momento em 2025.
“O setor de carne cultivada aprendeu lições caras. Ainda há poucos produtos no mercado”, observa Grant. “Nos mantivemos eficientes, com metas claras e foco no segmento de frutos do mar, que consideramos o mais promissor para deslanchar.”
Com o novo aporte, a empresa pretende aprimorar a textura, o sabor e o perfil nutricional de seus filés de peixe branco, além de avançar nos trâmites com a FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos dos EUA) e firmar parcerias com chefs para validar o produto e abrir os primeiros canais de distribuição.
Apesar de os frutos do mar cultivados ainda representarem uma fração pequena do mercado de proteínas alternativas, 2025 vem se consolidando como um ano marcante para esse segmento. Nos EUA, a Wildtype recebeu autorização para comercializar seu salmão cultivado, já disponível em restaurantes de vários estados. A BlueNalu também submeteu seu atum-rabilho à aprovação da FDA e mira o mercado europeu.
Na Europa, a alemã Bluu Seafood firmou parceria com a fabricante de temperos Van Hees para criar proteínas híbridas que combinam células de peixe cultivadas com ingredientes vegetais. Já na Índia, a Biokraft Foods apresentou protótipos de frutos do mar cultivados em colaboração com um instituto de pesquisa governamental… leia mais em Veganbusiness 06/11/2025

