As lições da Covid-19 e da guerra comercial de Donald Trump estão a conduzir a um processo de criação de “campeões empresariais europeus” em setores como as telecomunicações, a energia, a banca e a defesa.

Uma análise do ranking das maiores empresas do mundo por capitalização bolsista reflete o problema de escala enfrentado pelo setor empresarial europeu: a empresa líder do Velho Continente, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, só aparece na 25ª posição. E apenas seis outros nomes europeus surgem entre as 50 principais ações: a empresa de software SAP, a farmacêutica Roche, a fabricante de semicondutores ASML, a empresa alimentar Nestlé e as marcas de luxo Hermès e LVHM.

Os especialistas apontaram várias razões para a pequena dimensão das grandes corporações europeias, pelo menos em comparação com as gigantes que dominam o ranking, maioritariamente americanas, embora também existam empresas asiáticas.

Por um lado, os observadores falaram da ausência de um grande mercado de capitais europeu para financiar o crescimento das empresas estabelecidas e o desenvolvimento de novas empresas. Por outro, apontam para o zelo regulatório de Bruxelas, com a Comissão Europeia a ser acusada de priorizar a concorrência entre empresas e os cortes de preços em detrimento da escala global, vetando algumas grandes fusões e aquisições (M&A).

No entanto, os eventos recentes realçaram os riscos envolvidos nesta estratégia, uma vez que as perturbações na cadeia de abastecimento ou as guerras comerciais podem forçar a Europa a depender das suas próprias empresas para os fornecimentos essenciais.

O desafio foi assumido pela nova Comissão Europeia formada por Ursula von der Leyen em setembro de 2024. Esta encarregou Teresa Ribera, vice-presidente e comissária da Concorrência, de definir um novo sistema de controlo de fusões menos draconiano para facilitar a criação de campeões empresariais pan-europeus para competir com os americanos e os chineses.

Muitas empresas exigem há muito tempo que lhes seja permitido expandir para reduzir os seus custos, o que acreditam que criaria eficiências tanto na inovação como nos preços.

No setor das telecomunicações, por exemplo, a Telefónica está a analisar a possibilidade de se expandir através de aquisições nos mercados onde opera, como Espanha, Reino Unido e Alemanha. No setor energético, há rumores de uma fusão entre as duas maiores petrolíferas britânicas, a BP e a Shell. No setor bancário, o BBVA lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) para o Sabadell, enquanto em Itália estão em curso várias transações internacionais. No setor da defesa, o grupo Indra está a avançar com um plano para integrar as empresas espanholas de menor dimensão no seu setor.

Dois fatores explicam a preferência por estas fusões nacionais. O primeiro é que permitem um nível mais substancial de poupança ao integrar os negócios combinados, o que justifica as avaliações. O segundo fator é que os Governos nacionais continuam a encarar com desconfiança a possibilidade de uma empresa de outro país, mesmo europeia, assumir o controlo de uma empresa estratégica.

Bruxelas e as empresas precisam de quebrar este círculo vicioso. Atualmente, a Comissão Europeia desaprova as fusões nacionais, uma vez que criam fortes posições dominantes nos mercados relevantes. Mas, ao mesmo tempo, as empresas rejeitam as integrações transnacionais até que os mercados relevantes se tornem pan-europeus. Em setores-chave como a telefonia, a banca e a energia, ainda existem barreiras significativas à entrada em cada país.

As operações que foram vetadas

Em fevereiro de 2019, a Comissão Europeia desencadeou uma agitação política ao vetar a fusão do fabricante francês de comboios Alstom com a divisão ferroviária do grupo alemão Siemens, procurando evitar a posição dominante da empresa resultante no fornecimento de comboios de alta velocidade. O acordo tinha sido anunciado em setembro de 2017, quando as duas empresas anunciaram um projeto de integração que as ajudaria a gerar poupanças anuais de 470 milhões de euros, criando um gigante com um volume de negócios de 15,3 mil milhões de euros. Cada parte deteria 50% da empresa após a aliança.

A oposição da comissária Margrethe Vestager, após uma longa análise da transação, foi abertamente questionada em Paris e Berlim. O presidente Emmanuel Macron criticou duramente a atitude de Bruxelas, que por sua vez acusou as empresas de não estarem dispostas a oferecer concessões ou soluções para aliviar a sua posição dominante. Na perspetiva das autoridades franco-alemãs, a rejeição da fusão impediu a criação de um gigante europeu capaz de competir com as grandes empresas chinesas no setor ferroviário. A partir desse momento, os Governos dos principais países da UE começaram a trabalhar para mudar a mentalidade anti-fusões de Bruxelasleia mais em Executive Digest 16/06/2025