O Google pagou US$ 2,7 bilhões para recontratar um funcionário
O Google não poupou esforços para recontratar um único funcionário. Anunciada em agosto, a aquisição da startup Character AI, que cria chatbots de inteligência artificial que interagem como se fossem personalidades (de Steve Jobs a Winston Churchill), aconteceu única e exclusivamente para trazer de volta à big tech o talento de Noam Shazeer, disseram fontes ligadas à big tech ao Wall Street Journal. O especialista em IA se demitiu do Google três anos atrás para fundar o próprio negócio.
O valor da aquisição – ou da recontratação – foi de US$ 2,7 bilhões. O acquihire, no jargão do mercado, tem sido comum entre as gigantes no Vale do Silício. A tática, já empregada pela Microsoft e Amazon neste ano, tornou-se uma forma de adquirir talentos de startups de forma rápida, principalmente no campo da IA, altamente disputado no momento. Mas, até agora, nenhuma companhia havia desembolsado uma quantia tão alta nesse tipo de M&A.
Noam Shazeer é um dos maiores nomes do mundo em inteligência artificial, autor de papers que alavancaram a área em que o Google é hoje um dos expoentes globais. Na big tech, ele foi um dos primeiros funcionários e tornou-se especialista em chatbots, robôs de conversação por texto que, graças a suas pesquisas, foram ficando mais capazes de entender diálogos com um humano. Para ele, essa tecnologia poderia mudar para sempre o rumo da internet, com menos botões e mais conversas.
Os executivos do Google nunca compraram a ideia de chatbots. Esses robôs iam contra as regras de segurança da empresa (poderiam espalhar discurso de ódio e informações falsas), além de não se mostrarem produtos rentáveis para o ecossistema de buscas e anúncios da big tech. Desanimado, Shazeer pediu demissão depois de 17 anos e fundou a própria startup de IA, ao lado do colega brasileiro Daniel de Freitas, ex-Google.
A Character AI nasceu com foco exclusivo em desenvolver chatbots de pessoas notórias. A partir de imensas quantidades de dados, a inteligência artificial da empresa consegue emular como políticos, inventores, pensadores, celebridades e personagens famosos se comportam, repetindo frases e ideias de pessoas que vão de Harry Potter a Barack Obama. O objetivo da startup é que cada pessoa possa criar o seu chatbot, que contaria com uma personalidade própria.
O mercado de chatbots mudou com a chegada do ChatGPT, lançado em novembro de 2022 pela OpenAI. O produto da startup de Sam Altman mostrou ao mundo do que a a IA é capaz, se integrada a plataformas de trabalho. De repente, por conta do caráter similar da tecnologia, a Character AI da dupla Shazeer e Daniel de Freitas se tornou uma das startups mais procuradas do Vale do Silício e, em março de 2023, levantou US$ 150 milhões, avaliada em mais de US$ 1 bilhão, sem sequer ter uma fonte de receita.
Ao contrário das rivais, a Character não viu o futuro promissor do mercado. A startup de Shazeer e Freitas começou a apresentar dificuldades para manter o alto custo da operação de treinamento de inteligência artificial, problema que outras startups desse segmento enfrentam. Sem receita fixa e sem um grande investidor para sustentar o negócio (como o aporte de US$ 10 bilhões da Microsoft na OpenAI ou de US$ 4 bilhões da Amazon na Anthropic), a solução seria vender a startup.
O Google topou a oferta. O acordo diz que a Character continua com uma operação independente, e o chatbot da startup pode ser licenciado pela big tech, que não sabe como integrar o produto, diz o WSJ. Além disso, a gigante teria de comprar as ações de investidores e funcionários. Como condição, trinta funcionários teriam de ser admitidos ao Google – incluindo Shazeer.
“Nos últimos dois anos, o cenário mudou”, escreveu a Character AI em nota para comunicar a transação com o Google.
Agora, aos 48 anos de idade, Shazeer ostenta o título de vice-presidente no Google e comanda um departamento de cientistas de IA que inclui Freitas, o cofundador da Character AI… leia mais em Pipeline 25/09/2024

