O novo manual para startups na América Latina
A cada dois meses, faço uma pausa para refletir sobre as lições que me marcaram nas conversas que tivemos no programa “J Curve”. E os primeiros episódios que deram início à quarta temporada foram um sucesso absoluto. Ouvimos Paulo Passoni (Valor Capital, egresso do SoftBank), Roberto Oliveira (Blip), Guilherme Horn (WhatsApp) e André Penha (QuintoAndar). Diferentes setores. Diferentes estágios. Houve um conjunto claro de temas entre todos esses entrevistados:
- – Uma saída de US$ 200 milhões pode ser racional, mas não movimenta o ecossistema;
- – O WhatsApp não é um canal – é o novo sistema operacional dos negócios brasileiros;
- – IPOs são matemática. E eles começam com mais de US$ 300 milhões em receita;
- – O que construiu o último ciclo não vencerá este.
Vamos dissecar cada um.
O teto de M&A é real
Vamos falar de saídas – entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões é onde a maior parte das fusões e aquisições estratégicas se encerra na América Latina. Isso parece uma vitória – até que você entenda como o venture capital realmente funciona.
A maioria das startups fracassa ou tem desempenho inferior, portanto, cada investimento deve ser subscrito com o potencial de retorno de todo o fundo. Espera-se que uma ou duas empresas de destaque gerem a maior parte dos retornos e cubram todo o resto. Se você estiver gerenciando um fundo de US$ 250 milhões, isso significa que precisa de pelo menos uma empresa para gerar um retorno de US$ 750 milhões a US$ 1 bilhão.
Uma saída de US$ 200 milhões não é suficiente. Especialmente se a empresa levantou mais de US$ 75 milhões em uma avaliação pós-money de US$ 1 bilhão – os retornos são absorvidos por pilhas de preferências, diluição da propriedade e cascatas de liquidação.
É por isso que os investidores apoiaram o Nubank logo no início. Não porque era seguro, mas porque poderia dar retorno ao fundo muitas vezes. Esse nível de potencial é a linha de base do empreendimento. Qualquer coisa abaixo disso simplesmente não funciona.
Mas aqui está a nuance: a venda por US$ 200 milhões pode ser um resultado racional – e até mesmo uma mudança de vida – para um fundador.
Em uma região marcada por pressões cambiais, instabilidade política e volatilidade macroeconômica, não é irracional reduzir o risco e fazer caixa. Muitos fundadores estão lidando com riscos sistêmicos reais – não apenas com a teoria da sala de reuniões. Mas, embora a decisão faça sentido em nível individual, ela limita o que podemos construir em nível individual, ela limita o que podemos construir em nível regional.
Porque quando empresas promissoras são vendidas precocemente, o ecossistema não se compõe. Não há comparações públicas. Não há liquidez. Não há ações secundárias. Não há redes de ex-alunos. Não há LPs institucionais entrando.
A região só se desenvolve quando as empresas se mantêm irracionais e independentes.
IPOs não são sonhos: são alvos
Glamourizamos os IPOs como se fossem uma linha de chegada elusiva – raras, imprevisíveis. Mas não são. São matemática. E no setor de risco, são a pedra angular da lei da potência.
Para os investidores de capital de risco, um grande IPO não é apenas liquidez – é o evento que dá retorno ao fundo. Para os fundadores, é a escala, a permanência e a validação global. Mas, para chegar lá, não se trata de ser uma “boa empresa”. Trata-se de ser uma empresa de capital aberto..
*Olga Maslikhova é investidora e apresentadora do podcast The J Curve, que fala sobre tecnologia e startups na América Latina – Esse texto foi originalmente publicado em inglês no blog da autora e gentilmente cedido ao Pipeline…. saiba mais em Pipeline 17/04/2025

