A potência do mercado brasileiro, em particular quando não refreado, ainda faz brilhar os olhos do investidor estrangeiro para quem a constante instabilidade econômica, jurídica e política do país não é novidade. Daí porque, por montante não revelado, o norte-americano AptarGroup, global player na transformação de bens de consumo e dispositivos para administração de medicamentos teve noticiada em 31/10 pelo site Plastics News a sua compra da rival brasileira Sommaplast, puro-sangue na injeção de itens como dosadores orais, copos de dosagem, tampas, flaconetes e frascos como os produzidos há dois anos por injection blow para os redutos de fármacos, cosméticos e alimentos. O Aptar espera a formalização definitiva da aquisição até o fim do ano.

Na estrada desde 2000, a Sommaplast é gerida pelo presidente e fundador Marcos Fantozzi e os diretores Marcos e Fernando Francischelli. A empresa, repassa o artigo no portal americano, roda com parque de 48 injetoras, duas linhas de moldagem por compressão e ferramentaria própria, totalizando sob reinvestimentos seguidos capacidade produtiva de 4.800 t/a na sede em Itapecerica da Serra, Grande São Paulo. Por seu turno, o AptarGroup acumula bagagem de 25 anos de Brasil, à frente de duas plantas em São Paulo, uma no Paraná e outra na Bahia. E Entre seus clientes platinum, figuram, em higiene & beleza, Natura e Boticário.

AptarGroup e Sommaplast negaram entrevista a Plásticos em Revista. Uma das incógnitas no ar: por que a opção de comprar um concorrente demonstra fazer mais sentido para o Aptar do que investir em nova planta no Brasil? Simone de Faria, diretora responsável pela América Latina da especializada consultoria americana Townsend Solutions, racionaliza a decisão. “Em geral, a opção por investir na compra de um ativo, ao invés da construção de nova planta, acelera o ganho de escala, com menor gasto e menor risco, garantindo um caminho mais rápido e seguro para a expansão e o aumento da lucratividade”, ela pondera. “Além do mais, a Aptar tem um histórico de fusões e aquisições ao longo de seus mais de 80 anos de existência, desde sua origem nos EUA, como Werner Die & Stamping. Neste momento em que as margens estão estreitas, ganho de escala com sinergia é fundamental para redução dos custos. Essa aquisição permitirá ainda a otimização de equipes e maior poder de negociação nas compras de matérias-primas e na venda de produtos e ganho de market share. E não podemos desconsiderar o fato de que, com o dólar acima de R$5, qualquer ativo no Brasil é considerado barato para empresas multinacionais”.

Simone também justifica a transação em termos estratégicos-operacionais. Apesar do ambiente para negócios contaminado pelo Custo Brasil, ela coloca, o país é o terceiro maior mercado de beleza e cuidados pessoais, atrás de EUA e China, e o quarto em inovação. “O setor movimentou R$ 173,4 bilhões em 2024, representando 2% do PIB, segundo dados da Euromonitor International. As classes C, D e E aumentaram o consumo nos últimos anos e devem seguir com essa tendência”. Já o mercado farmacêutico, distingue a consultora, cresceu 12,9% em 2024, alcançando faturamento de R$ 160,7 bilhões, conforme anuário da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. “Foram comercializadas 6,07 bilhões de embalagens, segundo a entidade, volume equivalente a um aumento de 5,2% em relação ao ano anterior, em um total de 14.586 tipos de apresentações”. Por essas e outras, Simone amarra as pontas, a aquisição de empresas concorrentes é o caminho mais rápido para garantir acesso e consolidar market share nesses segmentos altamente lucrativos. Além disso, o Aptar poderá assim complementar de imediato seu portfólio local de produtos, aumentando a oferta aos clientes”.

Stephan Tanda, CEO do AptarGroup declarou na mídia ser crescente a demanda brasileira por produtos farmacêuticos devido à demografia (população idosa crescente) e a conscientização da população sobre cuidados com a saúde. Simone de Faria endossa a percepção do dirigente. “Não só no Brasil, mas no mundo todo a população idosa vem ganhando destaque, tanto pelo aumento em si, como pela maior estabilidade financeira e disposição a gastos em relação à faixa mais jovem”, ela acentua.” Este aumento cria uma demanda crescente e estável por produtos e serviços específicos, como os do setor de saúde e bem-estar”. Conforme exemplifica, a Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias) conduz regularmente pesquisas indicadoras de que as embalagens de medicamentos e cosméticos necessitam de mudanças focadas em manuseio e ergonomia. “Mostram ser essencial desenvolver mecanismos de abertura senior-friendly para pessoas com redução de força ou destreza (como artrite), sem comprometer a segurança infantil “, ela aponta. “Além disso, a inclusão de dosadores precisos, ergonômicos e fáceis de visualizar são cruciais para reduzir o risco de erros”. Noves-fora, pista livre para o transnacional AptarGroup, encorpado agora pela incorporação da Sommaplast, contribuir e deslanchar com suas inovações já em campo em mercados mais evoluídos.

Em 2023, reza o IBGE, foram registrados no país 2,5 milhões de nascimentos, o menor número desde 1976, e 1,43 milhões de óbitos, queda de 5% versus 2022, sendo a menor redução (-7,9%) de mortes na faixa a partir de 80 anos. A expectativa média de vida do brasileiro era de 76,4 anos em 2023 e de 71,1 anos em 2000 e se prevê 79,7 anos em 2040. A atual população idosa é situada em 30 milhões de pessoas e pesquisa recente do Serviço de Proteção ao Crédito mostra que 47% dos consumidores acima de 60 anos gastam mais com produtos desejados que com os essenciais e 45% dizem suar para achar produtos adequados à sua faixa etária. Saldo agridoce do quadro: uma bomba relógio para a Previdência Social (menos contribuintes e mais beneficiários) e mais desafios e potenciais oportunidades para o plástico singrar… leia mais em Plásticos em Revista 17/11/2025