Neste 9 de outubro de 2025, comemoramos com orgulho 17 anos de publicações diárias ininterruptas e totalmente gratuitas no Portal Fusões & Aquisições. Desde o início, nosso compromisso foi democratizar o acesso à informação de qualidade (cerca de 63 mil postagens no período) sobre o universo de M&A – “insights as a service”  – contribuindo para o desenvolvimento, a transparência e o amadurecimento do mercado brasileiro. Mais que uma trajetória de informação e análise, nossa existência é, acima de tudo, um registro vivo das transformações, desafios e oportunidades que o mercado de M&A no Brasil e global enfrentou ao longo de quase duas décadas.

O Início: Entre Crise e Esperança

No longínquo (e turbulento) 9 de outubro de 2008, nasceu nossa primeira matéria: Crise & Oportunidade?“, um título bastante emblemático para quem atravessava, à época, o epicentro de uma das maiores crises financeiras da história moderna (vale lembrar que em 2007, 64 companhias realizaram IPOs no Brasil). O gancho daquela publicação foi inspirado em uma reflexão do lendário Aswath Damodaran — reconhecido como uma das maiores autoridades globais em “valuation” de empresas e M&A — que, no olho do furacão, analisou a famosa combinação dos ideogramas chineses sobre “crise”: risco = perigo + oportunidade.

Segundo Damodaran, “tanto nos períodos bons como nos perigosos teremos oportunidades lucrativas, desde que sejamos sagazes e atentos aos riscos envolvidos”. Uma mensagem que se manteve atual e relevante ao longo dos anos, ecoando para além das oscilações do mercado.

Mudanças Profundas, Princípios Duradouros

Desde então, o mundo dos negócios passou por mudanças dramáticas. Novos setores emergiram, a tecnologia revolucionou a forma como investimos e operamos, e as fronteiras entre mercados se tornaram cada vez mais tênues. Mas, entre tantos ciclos de bonança e adversidade, uma lição se manteve constante: saber identificar e administrar riscos é o que distingue os verdadeiros protagonistas do mercado de M&A.

E em 2025? O que pensa Damodaran sobre o binômio Crise & Oportunidade?

Nada mais apropriado do que recorrer às ferramentas mais modernas para provocar a reflexão: perguntamos ao ChatGPT como Aswath Damodaran, em 2008, via a clássica ideia de “risco = perigo + oportunidade” — e como ele a examina agora, em 2025.

O resultado é fascinante: Damodaran continua vendo o risco não apenas como ameaça, mas como fonte de valor para aqueles preparados e informados. O avanço das ferramentas de análise, a expansão do acesso a dados e a velocidade das mudanças exigem ainda mais agilidade e inteligência estratégica, mas não alteram o conceito fundamental: crises são incubadoras de oportunidades para investidores prudentes e visionários.

A única certeza em mercados dinâmicos é que o risco estará sempre presente — e as oportunidades, também. Cabe a nós enxergá-las, decifrá-las e agir no momento certo.” — Parafraseando Damodaran, 2025

Damodaran em 2008: Crise, Perigo e Oportunidade

Durante a crise financeira global de 2008, Damodaran utilizava o conceito de “crise como perigo + oportunidade” de forma didática. Ele enfatizava:

  • Oportunidades em meio ao caos: Acreditava que grandes distorções nos preços dos ativos geravam oportunidades para investidores informados e disciplinados, principalmente aqueles que entendiam fundamentos e tinham horizonte de longo prazo.
  • Risco real e não apenas acadêmico: Alertava que o risco não é apenas uma abstração matemática; ele se manifesta de forma dramática em crises (defaults, liquidez seca, volatilidade extrema).
  • Senso crítico sobre frases feitas: Apesar de citar a ideia chinesa, Damodaran sempre foi cético sobre simplificações excessivas. Ele reconhecia o poder da frase como metáfora, mas lembrava que, na prática, encontrar oportunidade em meio ao perigo exige:
    • Informação de qualidade
    • Análise racional, não emoção
    • Gestão de portfólio e liquidez, algo que muitos não tinham em 2008
  • Exemplo prático (2008): Damodaran citava setores como o financeiro, duramente atingidos, mas destacava que investir nesses ativos não era simplesmente uma questão de compra oportunista — era preciso “precificar o medo”, entender o real valor e a extensão dos riscos.

Damodaran em 2025: Crises, Oportunidades e Sofisticação Analítica

Na abordagem mais atual — refletindo suas postagens, aulas e escritos pós-pandemia e eventos recentes — Damodaran evoluiu e sofisticou o conceito:

1. Menos otimismo automático, mais realismo

  • Ele passou a criticar o uso superficial do conceito “crise = oportunidade”.
  • Afirma que nem toda crise abre oportunidades claras. Algumas mudam a estrutura do mercado, destroem valor permanentemente ou deslocam setores.
  • Reconhece que o contexto global está mais complexo: políticas monetárias imprevisíveis, tecnologia disruptiva, mudanças climáticas e eventos geopolíticos amplificaram os riscos e a dificuldade de prever oportunidades “clássicas”.

2. Ênfase em análise de risco multifacetada

  • Damodaran recomenda uma avaliação ainda mais cuidadosa do risco: não só análise quantitativa (volatilidade, beta, etc.), mas também cenários de stress, liquidez dos ativos, riscos sistêmicos.
  • Introduziu discussões sobre “riscos incognoscíveis” (incertezas radicais, cisnes negros), que desafiam modelos tradicionais de valuation.

3. Oportunidade em crises: para quem?

  • Reforça que, hoje, as oportunidades em meio ao perigo exigem acesso privilegiado à informação, estrutura de capital robusta, e, principalmente, capacidade de esperar (“oportunidade só é oportunidade se você tem tempo e recursos para esperar o ciclo virar”).
  • A liquidez e o perfil do investidor são ainda mais determinantes — os riscos de “value traps” (armadilhas de valor) aumentaram.

4. Setores e geografias: novas nuances

  • Setores tradicionalmente considerados “baratos em crises” podem NÃO se recuperar no novo mundo (ex: mídias tradicionais, petróleo sem transição energética, varejo físico sem adaptação digital).
  • Leva em conta fatores ESG, adoção tecnológica, tendências macro e riscos climáticos.

5. Reflexão sobre erros de julgamento

  • Damodaran, honestamente, reconhece que crises recentes (COVID-19, inflação alta, tensões políticas) desafiaram várias premissas tradicionais de valuation e risco.
  • Exorta investidores a questionarem se estão enxergando “oportunidade verdadeira” ou apenas sendo atraídos por preços baixos com riscos subestimados.

Exemplos Práticos e Reflexões Recentes de Damodaran

Exemplo 1: Crise da COVID-19 (2020-2021)

Damodaran, em suas postagens durante a pandemia, alertou que:

  • “Nem toda crise gera vencedores óbvios.”
  • No setor aéreo, por exemplo, os riscos estruturais (mudança de hábitos de consumo, barreiras de entrada quebradas, mudança no comportamento de viagens) faziam com que algumas empresas nunca mais voltassem ao valor pré-crise.
  • Oportunidades existiam, mas exigiam cautela extra, simulação de cenários adversos e análise profunda do balanço de cada empresa.

Exemplo 2: Setor de Tecnologia nos Últimos Anos

Mesmo após quedas severas em empresas de tecnologia em 2022–2023:

  • Damodaran argumentou que só haveria oportunidade se houvesse fundamentos sólidos de geração de caixa no futuro.
  • Alertou contra o otimismo excessivo ao comprar empresas apenas porque “caíram demais” — enfatizando a diferença entre preço baixo e valor real em um novo cenário de juros altos.

Exemplo 3: O Novo “Desconto de Risco Brasil”

Em análises recentes sobre mercados emergentes, Damodaran explicou como fatores políticos e a imprevisibilidade regulatória exigem adaptar modelos clássicos de valuation.

  • O risco país, que já era relevante em 2008, ficou ainda mais forte em 2025 como determinante do preço justo de ativos.
  • Oportunidades em crises brasileiras podem ser reais, mas demandam uma sobredosagem de ceticismo quanto ao retorno ajustado ao risco.

Citações Recorrentes de Damodaran (paráfrases e traduções)

  • “Em qualquer crise, a tentação é acreditar que todo preço baixo é uma barganha. Mais importante que o preço é o valor – e o valor mudou?”
  • “Se você não pode sobreviver ao perigo, talvez nem chegue a colher a oportunidade.”
  • “A diferença entre crise como oportunidade e armadilha está em separar preço e valor, e em reconhecer o risco invisível.”

Como aplicar a “filosofia Damodaran” em 2025

Perguntas para Investidores:

  1. Estou enxergando uma oportunidade real ou apenas sonhando com retornos passados?
  2. Tenho tempo, capital e resiliência para esperar a recuperação?
  3. Por que o preço caiu? Os fundamentos mudaram estruturalmente?
  4. Quais riscos não são facilmente mensuráveis?
  5. Estou preparado para errar e sobreviver ao erro?
  6. Tenho fontes independentes e confiáveis de dados?
  7. O setor/região está em transformação irreversível ou em crise passageira?

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Exemplos de Posts e Setores – Damodaran 2020-2025

1. Posts emblemáticos do blog Musings on Markets

  • 2020 — “Hope is Not a Strategy”
    Ele alerta para movimentos de manada após as quedas pós-pandemia. Demonstra que, quando investidores compram apenas por otimismo (“as coisas não podem piorar”), ignoram o verdadeiro risco de mudança estrutural.

    Você não pode valorizar esperança. Negócios mudam em crises — quantifique a transformação antes de apostar na recuperação.

  • 2022 — “Valuing Tech: Pricing the Fallen Angels”
    Damodaran revisita empresas de tecnologia que despencaram, mas aponta:

    “Nem sempre o preço reduzido equivale a uma boa compra. Sem crescimento sustentável e fluxo de caixa viável, o novo patamar pode ser o ‘novo normal’.”

  • 2023 — “The Country Risk Conundrum (Brazil & Beyond)”
    Numa análise sobre Brasil, África do Sul e Turquia, Damodaran aprofunda a noção de que, em alguns mercados, o componente político-administrativo virou o principal determinante do valor das empresas — “crises recorrentes nem sempre criam oportunidades rentáveis.”

2. Setores e Casos Concretos em 2025

  • Financeiro/Fintechs no Brasil:
    Damodaran mostra que as oportunidades vieram para quem entendeu que grandes bancos tradicionais estavam mais protegidos pelo risco regulatório, enquanto fintechs perderam valor por não suportar o novo ambiente.
  • Energia e Sustentabilidade:
    Crise energética global foi, para alguns, só perigo (empresas dependentes de combustíveis fósseis) e para outros, oportunidade (geração renovável bem posicionada com acesso a crédito).
  • Varejo Digital:
    Empresas “queridinhas” de 2020, agora enfrentam lucros comprimidos, mudança fiscal e queda de consumo — Damodaran alerta: “Não existe preço barato o suficiente se a empresa não sobreviver.”

Recomendações recentes do Damodaran para quem busca oportunidades em meio aos perigos de 2025

  1. Adapte expectativas de retorno ao novo cenário de risco: O retorno esperado caiu — exija um “prêmio de risco” mais alto, ajuste suas planilhas de valuation.
  2. Valuation é sobre futuro plausível, não passado confortável: Use cenários conservadores e atualização constante dos fundamentos.
  3. Arme-se com informação independente: Não confie em análises superficiais ou consensos acríticos do mercado.
  4. Cuidado com o que chama de oportunidade: Se todo mundo viu, provavelmente o preço já refletiu — busque assimetria, não apenas desconto.
  5. Diversificação como defesa, não como otimismo: Não aposte tudo em recuperação de um único setor, país ou empresa.

Conclusão e Mudança Central

  • 2008: Risco era um convite à análise mais profunda porque havia “diamantes no lixo”, se você fosse racional e tivesse liquidez.
  • 2025: Oportunidade só surge se você REDEFINE o que é risco, entende as mudanças estruturais (não apenas conjunturais) e aceita que, muitas vezes, crise é apenas perigo — e nem toda queda se converte em oportunidade.

Damodaran hoje é mais cauteloso e crítico, usando o conceito de “perigo + oportunidade” como ponto de partida para reflexão, não mais como certeza universal para investir durante crises.

Damodaran evoluiu de um uso mais metafórico da ideia “crise = perigo + oportunidade” para um pensamento muito mais crítico e sofisticado. Se antes o convite era para olhar racionalmente para as crises, hoje é para questionar se existe mesmo uma oportunidade estrutural, ou se o risco superou qualquer retorno potencial. E, acima de tudo, respeitar humildemente as incertezas do mercado moderno.

Hoje, Damodaran é muito mais cético — reconhece que crises nem sempre são férteis para grandes oportunidades, e que, mais do que nunca, “oportunidade” só existe onde sobrevivência financeira, fundamentos sólidos e realismo quanto ao risco andam juntos. Autor: Ruy Moura – fundador do Portal Fusões & Aquisições