Desde que o mercado de corporate venture capital se estabeleceu no Brasil, há seis anos, as queixas mudaram. Se antes os incômodos estavam mais ligados a cláusulas de contratos nos acordos de investimentos, agora a insatisfação se concentra na falta de alinhamento no dia a dia, entre empresas investidoras e os fundos, com maior pressão por resultados de curto prazo, de acordo com pesquisa realizada pela Oliver Wyman em parceria com a Abvcap. O estudo avaliou 42 CVCs, seis startups, cinco corporações e quatro prestadores de serviço para o ecossistema.

Durante a pesquisa, um dos pontos que mais chamaram a atenção de Mariane Patussi, gerente de private capital da Oliver Wyman e uma das autoras do estudo, é que mais de 80% dos CVCs consultam as áreas de negócios da empresa-mãe para desenvolver um plano de sinergia, mas depois têm dificuldade em continuar estabelecendo essas relações.

Patussi acredita que esse cenário se cria a partir da distorção de incentivos entre áreas de negócios e o corporate. “Os CVCs precisam estar na estratégia da corporação e, de certa forma, ligados à meta dos altos executivos. Se não, você não consegue dar continuidade na captura dessa sinergia”, disse.

Esse é um sentimento compartilhado pelas startups, segundo Eduardo Tesche, sócio de private capital da Oliver Wyman e um dos responsáveis pelo trabalho, ao lado de Patussi. Tesche pontua que as startups afirmaram ter muita dificuldade para se aproximar da empresa-mãe, além de sentir falta de atitude de VC dentro das empresas.

As empresas e os CVCs têm que entender que primeiro vêm os fracassos para depois virem os sucessos. Para nós, falta a parte da corporação dentro do corporate venture, e falta a mentalidade de venture capital dentro do corporate venture capital”, explicou.

Por outro lado, essa aproximação não é tão simples. Para Artur Faria, presidente do comitê de CVCs da Abvcap e head da Oxygea, fundo de corporate venture capital da Braskem, bater na porta do diretor de uma grande empresa para falar sobre o fundo pode não ter muito efeito, devido à ordem de prioridades que ele deve seguir diariamente.

O que pode ser feito, entretanto, é a criação de mecanismos para estabelecer metas, de forma adequada, para pessoas-chave dentro da organização. Ainda que não resolva o problema, é uma demonstração de apoio. “Este alinhamento também ajuda no gerenciamento das expectativas da investida”, afirmou Faria.

A pesquisa aponta ainda que apenas 27% dos fundos medem resultados financeiros, um dado que chocou o presidente do comitê. Ele explica que a falta do foco no financeiro reflete em uma vida curta para o investimento, o que é possível observar com alguns nomes do mercado, que passaram pelo boom entre 2020 e 2021 e agora precisam mostrar resultados após a fase da “lua de mel”, mas estão com dificuldades. A falta de atenção aos KPIs pode, inclusive, gerar dificuldades na participação de deals junto com outros fundos de venture capital.

Ao mesmo tempo, Faria comenta que o mercado de inovação brasileira, em sua grande maioria, é composto por profissionais muito jovens, com menos experiência e sem acesso aos balanços das corporações.

Fora do Brasil, o cenário é outro. Em instituições na Europa e nos EUA, o executivo observa que todos são PhD, com mais de 50 anos e mais experiência, além de terem poder quando se trata de iniciativas de inovação aberta. “Isso tem influência em como a inovação aberta é vista dentro do mercado, o que tende a impactar os CVCs também”, disse.

Ainda assim, ele afirma que o desalinhamento que acontece entre empresa-mãe e CVCs é um fenômeno global. A única diferença é que outras geografias mais avançadas, como o Vale do Silício nos Estados Unidos, já passaram por essa fase por terem indústrias mais segmentadas que as do Brasil, onde o setor é mais jovem.

Porém, Faria admite que o país tem melhorado, subindo em uma curva exponencial que se beneficia dos outros desbravadores do mercado. “Mas a gente vai chegar lá, a gente está melhorando, tem uma luz no fim do túnel”, complementou… leia mais em Pipeline 25/11/2024