Com uma dívida líquida de R$ 21,7 bilhões e uma alavancagem de 2,9 vezes, a Cosan tem estudado internamente a venda de ativos para reduzir endividamento e vem recebendo dos bancos de investimento uma série de alternativas, que incluem desde o desinvestimento em parte do portfólio da Raízen e um sócio em projetos de etanol de segunda geração, venda da fatia na Vale à entrada de novos sócios para Compass e na Moove.

A pressa se explica porque, no atual patamar de alavancagem, o total de dividendos recebidos pelas subsidiárias em 2025 já ficaria abaixo do custo da dívida da holding, calcula o BTG, e há ainda um capex pesado para controladas como a Rumo.

A grande preocupação do mercado é com a alavancagem financeira da Raízen, joint venture com a Shell, que estava 2,6 vezes no terceiro trimestre e cuja geração de caixa era insuficiente para cobrir os custos da dívida, que somava R$ 35,9 bilhões. “Um patamar de alavancagem sustentável para a companhia seria algo em torno de 1,5 vez”, disse um gestor.

Para reduzir a alavangem, a Raízen deve se concentrar no core business, que são as operações de distribuição de combustíveis, açúcar e etanol, e vender ativos que não são considerados estratégicos. Entre essas operações estariam da Raízen Power, que incluem usinas de geração distribuída (GD), e pequenas centrais hidrelétricas, como mostrou o Valor.

A companhia também deve desacelerar o ritmo de investimento dos projetos de construção de 20 usinas de etanol de segunda geração (EG2) até 2030, apurou o Pipeline. “Eles devem financiar esses projetos com a geração de caixa das três primeiras usinas e podem, eventualmente, buscar um sócio para financiar as demais”, disse o gestor.

Mas apenas a venda de ativos da Raízen não é suficiente para desalavancar o balanço da holding e, por isso, o grupo não descarta vender um pedaço dos 4,15% que detém da Vale – embora tenha afirmado publicamente que ainda não tomou a decisão sobre isso. Hoje, essa participação vale R$ 10,9 bilhões.

A companhia já se desfez de uma pequena fatia. Em abril, a Cosan vendeu uma participação equivalente a 0,78% na Vale e aproveitou para liquidar parte das operações de derivativos collar atreladas à operação.

A resistência à alternativa é que vender todas essas ações agora poderia trazer prejuízo contábil para o grupo. Desde que a companhia tomou empréstimos e derivativos para comprar a participação na mineradora, em outubro de 2022, os papéis da Vale acumulam perda de 42,58%.

O BTG escreveu, em relatório de setembro, que o retorno desse investimento tem sido “medíocre”, embutindo, naquela época, uma perda econômica de R$ 3,1 bilhões, quando considerado o custo de oportunidade do capital que foi investido na companhia alocado em outro investimento.

A compra dos papéis foi feita por meio de operações de derivativos tomadas como J.P. Morgan e o Citi. Além disso, a Cosan tomou R$ 8 bilhões em empréstimos com Bradesco e Itaú, por meio da entrega de ações preferenciais. Em troca, o Itaú passou a deter 26,91% na Cosan Nove, que detém a participação na Raízen, e o Bradesco ficou 23,20% da Cosan Dez, que é a controladora da Compass, passando a receber os dividendos equivalentes a essas frações.

Resgatar essas ações custaria para a Cosan R$ 8,4 bilhões, segundo números do terceiro trimestre. “Como essas operações não têm prazo de vencimento, em uma eventual venda de ações da Vale é mais fácil a Cosan usar os recursos para pagar outras dívidas mais caras”, disse outro gestor.

A Cosan já pagou aos bancos R$ 1,5 bilhão em dividendos das respectivas subsidiárias e recebeu de dividendos líquidos da Vale, já descontando os custos com derivativos, R$ 1,6 bilhão desde o início do investimento, apurou o Pipeline.

A Cosan tem avaliado ainda uma private placement na Moove, depois da tentativa frustrada de IPO em Nova York. Ainda não há bancos engajados nessa venda minoritária.

A Cosan tem também 88% da Compass, empresa de distribuição de gás e infraestrutura do grupo, e já tentou fazer IPO da Compass em 2020. No ano passado, o grupo chegou a fazer um non-deal roadshow com investidores para uma oferta de ações que não avançou, e, hoje, a companhia é uma subsidiárias mais bem avaliadas do portfólio, com um valor justo estimado estimado pelo mercado em torno de R$ 20 bilhões. Contudo, dado que é uma das controladas que mais pagam dividendos para a Cosan, uma venda agora não seria prioridade, apurou o Pipeline.

Outra possibilidade ventilada seria fazer a venda na Commit Gás, antiga Gaspetro, que tem como acionistas a Compass e a Mitsui. Mas, antes, seria preciso fazer a consolidação dos ativos que a Mitsui tem participação direta e que ficaram de fora na segregação do portfólio da Commit em 2023.

Por fim, um desinvestimento na Radar, vertical da Cosan que cuida das terras do grupo, também é visto como mais difícil de ser viabilizado no curto prazo, uma vez que se trata de um ativo mais ilíquido, embora a Cosan tenha vendido a fazenda Vista Alegre no terceiro trimestre.

A companhia é ainda sócia da rede de lojas de conveniência Oxxo – mas o negócio, ainda pequeno e deficitário, não mexeria a agulha para a desalavancagem financeira do grupo.

As alternativas de venda dos ativos contribuiriam para reduzir o endividamento da companhia e ajudar a empresa a atingir a meta de índice de cobertura do serviço da dívida entre 1,5 vez a 2 vezes, que estava em 1,2 vez no terceiro trimestre. A empresa vem buscando alongar o prazo da dívida e vai usar os R$ 2,5 bilhões levantados …. leia mais em Pipeline 09/12/2024