Crescimento sequencial e ecossistema: outros caminhos para o venture capital
O ciclo clássico de captação segue fases conhecidas. No investimento-anjo, o foco é criar um produto que se encaixe ao mercado. Na rodada seed, ampliar a distribuição. Na série A, dar escala organizacional. E na série B, estruturar a governança. Nem todas as startups percorrem esse trajeto integralmente. Fusões, aquisições ou crescimento com fluxo de caixa próprio podem ser alternativas, especialmente em períodos de valuations corrigidos.
Nesse processo, a diluição dos fundadores tende a seguir padrões relativamente previsíveis. Estudos da Capshar e da Astella mostram que, no pré-seed, é recomendável manter ao menos 75% da participação com os sócios originais, assegurando incentivos adequados para avançar nos próximos marcos. Preservar o captable equilibrado é parte do desafio de atrair capital sem comprometer a motivação da equipe.
A Astella difundiu também o conceito de crescimento sequencial. Ele propõe que a empresa deve dominar primeiro um nicho bem definido, com persona, produto, canal e geração de leads, antes de ampliar a atuação. Esse PMF inicial valida a existência da companhia. Para alcançar faturamentos de R$ 100 milhões, pode ser necessário replicar a fórmula em até dez variações de PMFs. A escala eficiente resulta de uma sucessão de conquistas progressivas, e não de um salto único.
A seletividade do venture capital reforça essa lógica. De cada 100 candidaturas avaliadas, apenas 28 resultam em reuniões, 10 avançam para revisão, 5 entram em diligência, 2 chegam à negociação de termos e apenas uma se transforma em investimento. A dificuldade em acessar capital permanece como a principal razão de fechamento de startups no Brasil.
Ecossistemas bem estruturados ajudam a reduzir essa barreira. As chamadas “máfias” de ex-fundadores e executivos de scale-ups comprovam o poder da retroalimentação de talento e capital. O exemplo do PayPal é emblemático: cerca de 300 ex-funcionários, incluindo os fundadores, criaram empresas como YouTube, LinkedIn, Airbnb, Palantir, Yelp e SpaceX. Na América Latina, a “máfia do Rappi” mostra a capacidade de alavancar novas iniciativas a partir de uma rede de empreendedores que já passaram pela experiência de escala.
Essa retroalimentação gera efeitos econômicos amplos. Peter Thiel lembra que menos de 1% das empresas abertas nos EUA recebe venture capital e que esses aportes representam apenas 0,2% do PIB. Mesmo assim, as investidas respondem por 11% dos empregos privados e 21% da receita anual. Em uma economia global de startups avaliada em US$ 3 trilhões, os efeitos de não capturar esse potencial são significativos.
O fortalecimento do ecossistema, aliado a estratégias de captação inteligentes e à prática do crescimento sequencial, pode reduzir a mortalidade das startups e ampliar o impacto do venture capital. Nesse cenário, empreendedores e formuladores de políticas públicas encontram caminhos adicionais para criar negócios mais sólidos, resilientes e preparados para sustentar o próximo ciclo de inovação.
Pedro Teberga, professor universitário e especialista em desenvolvimento de negócios digitais. Ele coordena e ministra cursos em instituições como Einstein, Inteli, ESPM, FGV, Centro Universitário Belas Artes e Faculdade Belavista. É professor visitante na NOVA SBE (Portugal)… leia mais em Tiinside 17/11/2025

