Grupo Werthein, controlador da Sky, planeja novas aquisições no Brasil
O grupo argentino Werthein entrou no Brasil em 2021, adquirindo as operações da DirecTV na América Latina, o que incluía a Sky. Desde então, o mercado de TV se tornou ainda mais desafiador, com o crescimento do streaming e da pirataria. Mas, paralelamente, a Sky e depois o próprio grupo Werthein passaram a investir em banda larga, no Brasil.
No passado, o grupo já havia sido acionista da Clablevisión, maior operadora de cabo da Argentina, e acionista da Telecom Argentina, uma das maiores operadoras de telecomunicações.Trata-se de um grupo empresarial importante na Argentina e com fôlego para se expandir no Brasil. Recentemente, adquiriram 95% do capital do provedor de banda larga Zaaz, e não devem parar por ai. Nesta entrevista, Darío Werthein, acionista do grupo Werthein, fala com otimismo dos planos da empresa no país, mesmo com os desafios políticos e econômicos e projeta novas aquisições e estratégias no País.
Samuel Possebon – O grupo chegou ao Brasil há pouco mais de três anos, com o investimento na Sky. Qual a sua avaliação dos negócios no país?
Darío Werthein – Estamos muito contentes com a aquisição da Sky, que ocorreu logo após a pandemia. Naquela época, o mercado de pay TV e streaming estava em alta, e a digitalização nas casas aumentou significativamente. Mas enfrentamos um desafio interessante, pois a empresa tinha uma história de pouco cuidado no passado. Trabalhamos para revitalizá-la, diversificando e defendendo o negócio de pay TV tradicional, que está mudando lentamente, mas ainda tem potencial. Estamos desenvolvendo produtos novos, desenvolvemos o OTT, mudamos muito nosso negócio de streaming, desenvolvemos nossa geração de conteúdos, exceto no Brasil, porque no Brasil não se pode fazer as duas coisas (produzir e distribuir), mas esta é nossa estratégia no resto dos países hispânicos.
Quais são os direitos de transmissão que vocês possuem?
Temos os direitos de transmissão do Mundial de 2026 e 2030, além de competições como a Conmebol, Liga Sudamericana, Liga da Espanha, Copa Argentina, Copa Equador, Copa Peru e futebol colombiano. E agora estamos começando com produções originais também. No entanto, no Brasil, a legislação não permite que sejamos produtores e distribuidores ao mesmo tempo, o que limita nossa atuação aqui. Se fosse possível mudar a legislação, certamente teríamos a mesma estratégia.
Como vocês estão lidando com a tendência decrescente do mercado de TV paga?
Não podemos ir contra o mercado, então estamos focados em reduzir o churn, melhorar a venda da pay TV e fidelizar nossos clientes.É um bom mercado, que precisamos defender e inovar. Por isso estamos investindo no crescimento em OTT, conectividade banda larga e no que chamamos de ecossistemas. A ideia é equilibrar a curva decrescente da pay TV com o crescimento nessas novas áreas.
Qual é a importância do Brasil para o grupo?
Para a Vrio, o Brasil representa 48% da companhia. É um mercado desenvolvido e grande, que está na vanguarda de muitas áreas e desenvolvimentos que ainda podemos explorar. Aprendemos muito aqui e vemos uma oportunidade maravilhosa para crescer na indústria e expandir para outras áreas. O mercado brasileiro é desafiador, mas também muito promissor.
Vocês começaram a atuar em banda larga, inicialmente com a própria Sky, e agora aquisições. Qual a estratégia?
Pretendemos adquirir ISPs, como a Zaaz, e firmamos um acordo com a Kuiper para oferecer conectividade por fibra e satélite. Isso nos permitirá uma ampla gama de serviços, com fibra nas cidades maiores e o sistema satelital da Amazon nas áreas onde a fibra é cara. E em breve, quando saírem os telefones satelitais com Amazon, também vamos ter esse serviço e vamos olhar outras alternativas móveis. A Zaaz já opera com uma MVNOs. Mas não pensamos em adquirir espectro, entendemos que não faz sentido começar uma operação do zero. Mas a ampliação da conectividade é uma parte importante da nossa estratégia. O mercado de banda larga vai passar por um novo ciclo de consolidação, vemos oportunidades em operadores médios, do tamanho da Zaaz (cerca de 200 mil assinantes), e certamente seguiremos com essa estratégia. Além disso, cada vez mais, queremos ampliar o ecossistema, que é a venda de outros produtos e serviços que já temos no grupo, como seguros e TI, e parcerias com parceiros para revenda de eletricidade. São estratégias que trazem novas receitas e também ajudam a fidelizar.
Como vocês veem o mercado de banda larga no Brasil e na América Latina?
O crescimento agora é mais inorgânico. No Brasil, há muitas ISPs, e acreditamos que haverá uma concentração no mercado, pois tantas empresas não são sustentáveis a longo prazo. Estamos estudando oportunidades de aquisição em tiers médios e pequenos, que oferecem boas oportunidades de expansão. E seguimos com a estratégia de redes neutras, quando for possível.
A parceria com o fundo indiano Aarna tem algo a ver com essas aquisições?
Estamos sozinhos por enquanto. Temos uma parceria com um fundo indiano para telecomunicações e agroindústria, buscando criar um ponte entre América Latina e Índia. Estamos trabalhando ativamente em ideias interessantes com eles, que em breve serão anunciadas.
Como vocês trabalham as sinergias entre as diferentes iniciativas no Brasil?
Preferimos dividir os negócios em Pay TV, streaming, ecossistemas e conectividade. Isso nos dá flexibilidade para cada mercado trabalhar de forma independente, permitindo que aprendamos rapidamente e troquemos experiências. Essa estratégia nos dá agilidade para tomar decisões e adaptar nossas ofertas conforme necessário.
Há oportunidades na compra de uma eventual participação da Telefônica no Brasil?
Não participamos de porções minoritárias. Na Argentina, tentamos. Em outros países, como Chile, estamos avaliando oportunidades. Mas no Brasil, não estamos interessados em uma participação de 20%, pois buscamos controle total em nossas aquisições porque nos vemos como investidores estratégicos, não é comprar para vender em três ou cinco anos.
E como está a parceria com a Amazon e o projeto de banda larga via satélite Kuiper? Foi uma das primeiras parcerias do gênero, não?
Eles têm uma parceria com a Vodafone na Europa e na África. Aqui, nós somos os primeiros parceiros. Houve alguns atrasos nos lançamentos, mas o projeto é espetacular. A Amazon está firme e decidida a lançá-lo. Visitamos Seattle para ver a fabricação dos satélites e estamos confiantes no potencial do projeto.
Como você vê o avanço da Starlink na América Latina?
Eles são first player, e nós seremos second player. Vamos competir, mas acreditamos que há espaço para ambos no mercado, especialmente com a crescente demanda por conectividade.
O momento político e econômico na América Latina é complexo, o Brasil enfrenta a questão tarifária com os EUA. Como isso tudo afeta as estratégias de investimento de vocês?
O Brasil é estratégico, independente da política. É um país pujante, com economia forte e mercado grande. Queremos continuar crescendo aqui, pois vemos um futuro promissor, apesar dos desafios políticos e econômicos.
E como você vê a integração Brasil-Argentina nesse momento, com governos tão distantes, com visões distintas sobre o Mercosul?
Pode ser potencializada, com ou sem Mercosul. Mercosul é uma grande ideia e pode ser ainda mais útil no futuro. Precisamos deixar as ideologias de lado e focar no desenvolvimento dos povos.
E como você percebe a atuação dos reguladores na América Latina? Hoje há um debate sobre regular ou não o ambiente digital, sobre assimetrias…
O Brasil está na vanguarda regulatória, especialmente no combate à pirataria, e é um exemplo a ser seguido. Na questão da Internet, é ruim que haja esse grau de assimetrias. Estamos trabalhando para mostrar a todos os governos que não tem por que haver assimetrias que temos que nivelar o campo de jogo para que todos possam competir de forma igual. E o nivelamento do campo de jogo é essencial. E vejo que os reguladores estão preocupados com isso, o que é essencial para um mercado justo e competitivo.
Quais outras oportunidades vocês veem no Brasil?
Hoje, estamos investindo em genética bovina no sul do Brasil e no setor de seguros. Desenvolvemos uma fintech e estamos explorando o mercado financeiro. O Brasil oferece muitas oportunidades, e estamos sempre buscando novas áreas para expandir.
Qual é o futuro do mercado de TV?
A TV paga tradicional e a TV satelital continuarão existindo, mas em menor escala. Estamos focados em oferecer canais abertos, esportes, notícias e filmes premium. Não pretendemos competir diretamente com gigantes como Netflix, mas sim oferecer um serviço complementar e de qualidade… leia mais em teletime 25/07/2025

