IA: mesmo com a desaceleração na adoção, a revolução ainda está só começando
O mais recente levantamento do US Census Bureau mostrou algo que, à primeira vista, parece preocupante: a adoção de inteligência artificial por grandes empresas, aquelas com mais de 250 funcionários, começou a cair. O MIT reforçou o diagnóstico com outro dado duro: 95% dos projetos-piloto de IA generativa em empresas não chegam a gerar impacto mensurável no resultado. Manchetes prontas para alimentar os céticos.
Nada mais enganoso.
O vale do desânimo é parte do processo. A curva de adoção de qualquer tecnologia transformadora passa por fases de euforia e desencanto. Estamos exatamente nesse ponto com a IA. Empresas se jogaram em pilotos apressados, sem clareza de casos de uso, sem integração com processos reais. O fracasso não é da tecnologia, é da forma como foi aplicada.
A história da inovação é repetitiva. O mesmo aconteceu com a internet nos anos 90, com o mobile no início dos anos 2000 e com o próprio e-commerce brasileiro há pouco mais de uma década. Atravessar esse vale é inevitável — e é nesse vale que se separam os experimentos descartáveis dos negócios que mudam o jogo.
Muita gente se perde na pergunta errada: quando teremos uma inteligência geral artificial comparável ao cérebro humano? A questão relevante é outra: onde a IA já está funcionando hoje, gerando eficiência e abrindo espaço para novos modelos de negócio?
Na natureza, modelos simples de inteligência são altamente bem-sucedidos. Um inseto com poucos neurônios já é capaz de sobreviver, se adaptar e dominar ecossistemas. Não precisamos recriar o cérebro humano para transformar mercados. Precisamos de aplicações pragmáticas: automação de processos, análise de dados em escala, copilotos que aumentam a produtividade de profissionais.
O que parece fracasso é maturação
Sim, grandes companhias estão reduzindo o ritmo. Mas esse movimento não é um epitáfio para a IA. É um sinal de que a fase de pilotos mal desenhados está chegando ao fim. O próximo ciclo será de consolidação: empresas vão aprender a aplicar IA com mais foco, em áreas onde ela entrega valor concreto.
Enquanto isso, startups e novos entrantes enxergam nas brechas o espaço para criar mercados inteiros. A história mostra que, nesse tipo de transição, incumbentes que hesitam pagam caro — e às vezes desaparecem.
A inteligência artificial é tudo isso. Vai reinventar setores, criar indústrias inteiras e alterar a forma como trabalhamos, consumimos e nos relacionamos. Mas não será um caminho linear. É justamente nesse momento de aparente desaceleração que surgem os modelos vencedores.
O risco para empresas e investidores não é acreditar demais no hype. É se deixar levar pela narrativa de que “não é tudo isso” e perder o bonde.
A revolução não está desacelerando. Ela está só começando.
Guilherme Assis é cofundador e CEO do Gorila… leia mais em Valor Investe 12/09/2025

