Com o feriado da independência nos Estados Unidos, este 4 de julho se tornou também um marco para a bolsa brasileira.

Mesmo sem o capital de investidores estrangeiros, que folgam hoje, o principal índice de ações do Brasil sextou com um novo recorde.

O Ibovespa encerra a semana com 3,2% de ganhos após a tímida alta de 0,24%, que o levou aos 141 mil pontos. Desde o começo de julho, avançou 1,73% e, no ano, a carteira valorizou mais de 17,44%.

O que não significa que a ausência dos gringos não foi sentida. O Ibovespa teve o menor giro desde o pregão de 22 de novembro de 2018, quando movimentou R$ 5,4 bilhões.

A carteira do Ibovespa movimentou pouco menos de R$ 6 bilhões hoje, 64% abaixo da média diária dos últimos 12 meses, de R$ 16,5 bilhões.

A falta dos dólares que costumam entrar via mercado de ações também foi sentida no câmbio.

O dólar comercial avançou 0,36% contra o real e fechou a sessão a R$ 5,42. Na semana, a moeda americana tem queda de mais de 1% e, desde o início do ano, ficou 12,23% mais barata para o brasileiro.

Basicamente, o pregão de hoje refletiu de forma mais transparente o que vem sendo falado desde o fim do ano passado no mercado de capitais: com a escalada do risco fiscal e uma Selic em 15% ao ano (o que garante retornos polpudos na renda fixa), o investidor brasileiro não quer nem saber de renda variável por aqui.

Ao menos, os poucos que mergulharam na bolsa nesta sessão de pasmaceira mostraram algum apetite ao risco.

Das 84 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 57 valorizaram nesta sessão.

Enredos internos

O movimento de rotação do capital para fora do mercado americano se sustenta na tese de enfraquecimento do dólar e, agora, com o risco fiscal escalando também nos Estados Unidos. Assim, os gringos andam cavando oportunidades em bolsas aqui e ali para garantir retornos maiores para seus fundos e outros veículos de investimentos.

Embora os investidores tenham se concentrado mais nas negociações comerciais do governo americano nesta semana, com a aproximação do fim do prazo (9 de julho), a aprovação do projeto de lei tributária — e seu custo estimado de US$ 3,3 trilhões — deve ganhar protagonismo entre investidores neste segundo semestre.

De acordo com estimativas, o pacote de Donald Trump e aprovado ontem pelo Congresso americano pode elevar a dívida pública dos EUA a 130% do seu Produto Interno Bruto (PIB). E essa novidade chega enquanto ainda não se tem certeza dos efeitos do tarifaço da economia.

Mas a situação aqui não é muito melhor. Com a novela do IOF ganhando novos contornos a cada dia que passa e um governo acuado pelo Congresso brasileiro, quem decidir se jogar na renda variável agora precisa preparar o estômago para a volatilidade mais elevada que o normal na bolsa.

  • A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2026 seguiu em 14,92% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.
  • No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2029 foram de 13,19% para 13,23% ao ano.
  • Já para janeiro de 2036, a taxa subiu de 13,30% para 13,34% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo.

O fluxo de recursos estrangeiros que entraram no Brasil, embora suficiente para garantir os recordes ao Ibovespa, é marginal diante do montante movimentado globalmente.

Cerca de US$ 12,3 trilhões saíram das ações americanas no auge da crise do tarifaço, quando as bolsas americanas bateram o menor nível neste ano. E embora, os principais índices dos EUA já tenham se recuperado, o valor de mercado das empresas listadas ainda está US$ 180 bilhões aquém do nível no começo de janeiro.

Para efeito de comparação, o valor líquido investido nas empresas brasileiras via mercado de ações em todo o primeiro semestre deste ano representa cerca de 2,6% desse montante.
Também não há uma tese que inspire otimismo com o Brasil, em especial, e sim um movimento de reacomodação do capital global, que neste momento favorece mercados emergentes e, consequentemente, a nossa bolsa.

Esse movimento pode se manter. Mas não sem sofrer solavancos… saiba mais em Valor Investe 04/07/2025