Juros altos no mundo todo bateram na indústria de private equity global no últimos anos: os desinvestimentos a taxas razoáveis ficaram mais difíceis, os investidores refugiados em renda fixa mais resistentes a novos aportes e esperando o retorno dos fundos mais antigos, e fazer novas aquisições virou um cabo de guerra com os empresários e empreendedores sobre valuations. Mas há sinais de mudança no horizonte.

O início de correção de juros nos Estados Unidos e na Europa começa a trazer os primeiros reflexos para o private equity. Captar ainda está difícil – mas, quem consegue, tem levado menos tempo para botar o fundo de pé. As saídas têm sido de tíquete maior – mas, no consolidado, ainda são em menor quantidade. E o número de novos fundos voltados ao mercado secundário também desacelerou, indicando que os investidores voltam a ver espaço para transações primárias e saídas mais tradicionais – no entanto, continuation funds seguem firmes e fortes, ou seja, pode não ser ainda uma mudança de humor e disposição tão relevante, mas sim uma divisão de espaço com os secundários.

Todos esses dados estão reunidos num relatório preliminar da consultora Preqin sobre o ano passado. Apesar do descasamento na expectativa de preços de compradores e vendedores, o volume aportado pelos fundos aumentou 7% em 2024, com um valor agregado de US$ 511,6 bilhões em mais de 7 mil transações. No quarto trimestre, o volume de investimentos foi menor nos EUA, com gestores esperando um melhor cenário sobre o novo governo federal, e aumentou 7% na Europa.

Enquanto as saídas menores prevaleceram nos três primeiros trimestres, o último foi de transações maiores, segundo a Preqin. O valor médio das transações foi de US$ 222 milhões, maior que a média consolidada do ano, que ficou em US$ 186 milhões, e superior também à média dos últimos cinco anos, que foi de US$ 209 milhões. Um dos vetores para isso, além da redução de juros, foi a retomada de IPOs em mercados maduros e o volume em alguns emergentes, como a Índia.

Já para fundos novos, as captações no quarto trimestre foram menos da metade do mesmo período de 2023, com 182 veículos levantando US$ 85,9 bilhões – o menor patamar em mais de sete anos. Em todo o ano de 2024, foram 952 fundos com fechamento de captações, queda de 27%, somando US$ 584 bilhões, queda de 26%.

Um dos impactos nessa captação veio do menor volume dos fundos dedicados a transações secundárias. Em 2023, esse tipo de fundo levantou US$ 92,4 bilhões, respondendo por 12% da captação total global em private equity. Já em 2024, o montante caiu 39%, para US$ 56,3 bilhões em 37 fundos. As gestoras e os investidores se voltaram para o nicho em 2022 e 2023 diante da alta dos juros, que complicou as estratégias de desinvestimentos – os secundários despontaram como a alternativa para devolver capital aos cotistas mais rápido. A reversão do cenário, portanto, tornaria natural um desaquecimento desse tipo de veículo.

Mas curioso notar que os continuation funds, aqueles que permitem a um gestor seguir com posição em um ativo por mais tempo, seguem acelerados. Essa estratégia passou a ser bastante usada por fundos com perfil de venture capital, que optam por esperar a maturação de companhias para que virem unicórnios, mas também virou apoio ao private equity tradicional que precisa acelerar a devolução de capital aos cotistas. No dado preliminar, os fundos de continuação levantaram US$ 36 bilhões em 2024, perto do recorde de 2021 – somente no quatro trimestre, foram 65 veículos novos.

Um número mais encorajador para o fundraising de private equity, em geral, é que 33% dos fundos levantados em 2024 fizeram o final closing em 18 meses, fatia que foi de 25% em 2023, considerando a base de dados da Preqin. Só 3% dos fundos levaram mais de três anos na rua, fatia que era de 17% em 2023 e 14% em 2022. Outro relatório da consultoria, que consultou as intenções de investidores, mostra que 50% pretendem aumentar a alocação em private equity em 2025, comparado a 28% nos planos do ano anterior.

No Brasil, com a taxa de juros ainda em trajetória de alta, o ritmo pode demorar a mudar – mas, como os fundos captam também no exterior, o apetite internacional pela categoria é fundamental... leia mais em Pipeline 31/01/2025