Sob pressão do Banco Central, o banco Digimais (antigo Banco Renner) está em novas negociações para venda de controle, apurou o Pipeline. Ao menos dois potenciais interessados já apareceram — mas ainda sem qualquer proposta na mesa e sem decisão de avançarem.

O primeiro deles é o Nubank, candidato preferido do regulador, que vê numa potencial transação uma solução para duas questões. A primeira é que o regulador quer que a fintech fundada por David Vélez tenha licença de banco múltiplo — e uma aquisição agilizaria esse caminho. Ao mesmo tempo, o Digimais passaria para as mãos de um outro sócio capitalizado e com bom histórico no regulador.

Foi o próprio BC quem chamou o Nubank à mesa e Roberto Campos Neto, o ex-presidente do órgão que agora é chefe de políticas públicas da fintech, participa da análise, conforme pessoas com conhecimento do assunto. Além da licença, a compra do Digimais geraria crédito tributário para o Nubank — há, no entanto, uma preocupação reputacional da fintech sobre uma eventual aquisição, apurou a coluna.

O outro potencial interessado foi introduzido ao BC pelo Digimais: é Tércio Borlenghi Jr., fundador e controlador da Ambipar. Ele teve ao menos duas reuniões sobre o tema, em maio e em julho, com envolvidos no assunto. Em uma delas, com o escritório de advocacia que assessora o banco de Edir Macedo, apurou o Pipeline. Do lado do Digimais, também participa de reuniões do tema o presidente do conselho, o bispo João Luiz Urbaneja.

Ainda que sem colocar proposta, Borlenghi teria discutido a possibilidade de usar parte de suas ações na Ambipar como garantia de reforço de liquidez para o banco, de acordo com as fontes. Ele não tem histórico no setor financeiro e teria que passar pelo aval do BC, como qualquer novo entrante. O empresário se aproximou recentemente de Daniel Vorcaro, do Master, e de Nelson Tanure, e chegaram a ser seus sócios na Ambipar — os três estavam em discussão com a CVM sobre uma suposta atuação conjunta na Ambipar; posteriormente, a autarquia, sob presidente interino, descartou essa tese.

Procurado pelo Pipeline, o Digimais enviou nota por meio de seu advogado, Jairo Saddi: “A administração do Banco Digi+ não comenta possíveis tratativas de qualquer negociação. O banco segue na sua trajetória lucrativa e na expansão de seus negócios em todos os mercados que atua.”

Borlenghi negou categoricamente qualquer interesse ou negociação pelo Digimais. Disse em nota: “Tércio Borlenghi Jr. esclarece que são totalmente infundadas e inverídicas as informações de seu suposto interesse no banco Digimais e afirma que jamais realizou reuniões com o Banco Central sobre este tema.”

O Nubank não comentou. O Banco Central não deu retorno até a publicação desta reportagem.

O Digimais já tinha fechado uma venda, em janeiro, para o Bluebank, de Maurício Quadrado — o novo dono se comprometia com um aporte, em capital ou títulos, da ordem de R$ 800 milhões. Quadrado fechou o negócio com o grupo de Edir Macedo quatro meses depois da cisão com o Banco Master. O fim da operação veio na mesma semana em que saiu a venda do Master para o BRB. Oficialmente, as partes desistiram mutuamente da transação antes de qualquer decisão do BC.

Há anos o BC acompanha de perto o Digimais. Havia resistência interna no regulador sobre a venda – o que arrastou por anos a negociação do grupo de Macedo com a varejista Renner. Primeiro, foi uma aquisição de participação minoritária, em 2013, e, em 2020, a compra do controle. Essa ala do BC preferia deixar finanças e grupos religiosos separados, disseram as fontes. Nos últimos anos, o BC pediu ajustes na operação, como revisão de marcações de ativos que compõem a estrutura de capital, incluindo precatórios, e a precificação de carteira de financiamento de veículos em fundos de direitos creditórios.

Entre 2023 e 2024, houve um aporte dos acionistas de R$ 350 milhões no banco, o que levou o índice de Basileia de nível 1 de 8,77% para 10,67% em um ano, e o índice de Basileia amplo caiu de 16% para 15,63%. Apesar da licença de banco múltiplo, o portfólio de serviços é mais restrito. Não é possível, por exemplo, abrir uma conta corrente pessoa física. O financiamento de veículos usados representa mais de 70% do negócio.

Na demonstração financeira anual, o banco diz que mantém um caixa de quatro vezes seu patrimônio líquido — “com liquidez robusta, alocada em títulos públicos”. Ao fim de 2024, eram R$ 2,88 bilhões no caixa, com patrimônio de referência de R$ 932 milhões, conforme balanço auditado pela CLA.

O Digimais teve prejuízo de R$ 45 milhões no segundo semestre do ano passado mas, no consolidado anual, lucro de R$ 53 milhões. Dado prejuízos acumulados nos últimos anos, o banco não tem reserva de lucro. Cerca de 95% da captação é de depósitos a prazo em plataformas de varejo, principalmente via CDB e letra financeira. Ao final de 2024, eram R$ 8,01 bilhões em depósitos a prazo, dos quais R$ 2,6 bilhões com vencimento em até 12 meses e R$ 2,1 bilhões em até três anos. Os CDBs têm taxas pré-fixadas de 9,6% a 15,35% ao ano e taxas pós em torno de 118,8% do DI.

De acordo com duas fontes que participam do processo de venda, o BC ficaria confortável com um aporte acima de bilhão de reais, em capital ou créditos — uma vez que parte da liquidez atual do banco seria um depósito da TV Record e, no caso de uma venda, isso não estaria mais na estrutura de capital. Uma terceira fonte, esta próxima ao grupo de Edir Macedo, afirma que a questão não é financeira e destaca ainda que … leia mais em Pipeline 25/08/2025