Quando se fala do “humor do mercado” é comum imaginar uma entidade abstrata e imprevisível, que reage a boatos e ignora o que acontece na vida real. Um estereótipo que, como tal, revela uma ideia preconcebida distante da realidade.

O mercado é, na essência, parte viva da economia. É o canal que conecta a poupança de pessoas como eu e você ao uso produtivo do capital, mobilizado para dar suporte à inovação, ao crescimento e à criação de empregos.

Nos últimos anos, essa conexão se tornou ainda mais evidente no Brasil. O mercado de capitais deixou de ser um nicho e passou a ocupar papel central no financiamento das empresas. Hoje, quase um terço da dívida das companhias não financeiras vem da emissão de instrumentos como debêntures, certificados e fundos de recebíveis, além de notas comerciais.

São recursos para construir fábricas, desenvolver novos produtos, expandir os negócios ou contribuir para o fluxo de caixa das companhias.

Essa transformação estrutural, que faz do mercado um dos principais motores da economia real, é calcada em três movimentos relativamente recentes. O primeiro é a reorientação do financiamento público.

A redução do crédito subsidiado obrigou empresas a buscarem outras fontes de recursos, e o mercado, sobretudo por meio dos fundos de investimentos, respondeu. Esse deslocamento demonstrou a capacidade do setor privado de financiar o próprio crescimento, de forma diversificada e sustentável.

O segundo foi o ambiente de juros em queda a partir de 2017, alcançando níveis historicamente baixos entre 2020 e 2021, como resposta ao freio imposto pela pandemia ao crescimento do país.

Com a taxa Selic em 2% ao ano, os investidores passaram a procurar alternativas com maior rentabilidade, impulsionando o crédito privado. Tal demanda ampliou a base de financiamento das empresas e fortaleceu o elo entre quem poupa e quem produz.

A familiaridade construída nos tempos de juros baixos se revelaria um ativo importante para as empresas a partir de 2022, quando a Selic disparou e as emissões no mercado de capitais se apresentaram como alternativa mais barata (e já conhecida pelo público investidor) do que o crédito bancário.

O terceiro movimento é o avanço regulatório e o surgimento de novos instrumentos, como as notas comerciais, deixando a captação de recursos mais simples e ágil até para empresas menores.

Os resultados desse conjunto de elementos são evidentes. As debêntures incentivadas já superam o crédito do BNDES em projetos de infraestrutura. Os CRIs e CRAs, por sua vez, respondem por cerca de 30% do estoque de crédito imobiliário e agrícola.

Assim, não é exagero dizer que projetos os mais diversos passam pelo mercado de capitais, da construção de um empreendimento imobiliário à inauguração de uma estrada ou porto.

Por trás desse avanço, há um esforço contínuo de fortalecimento institucional. A combinação de um arcabouço regulatório robusto com uma autorregulação sólida, como da Anbima (além da atuação da Comissão de Valores Mobiliária e do Banco Central), assegurou a transparência e a liquidez de que o sistema precisava para consolidar a segurança entre os investidores.

O amadurecimento do mercado, com a padronização de informações e a disseminação da educação financeira, permite que ele cresça sem perder de vista a missão de alocar recursos de forma eficiente para impulsionar avanços sociais e econômicos.

Assim, fica evidente que o mercado de capitais se tornou imprescindível para segmentos estruturantes da economia real, transformando poupança em oportunidade, risco em crescimento e confiança em prosperidade compartilhada.

Reconhecê-lo como mecanismo social de investimento e produção, e não como mero ente especulativo, é um passo necessário na direção de um país que precisa de instrumentos financeiros os mais diversos para financiar seu futuro..Autora Tatiana Itikawa – superintendente de Representação de Mercados, Autorregulação e Relações Internacionais da ANBIMA. leia mais em InfoMoney 18/11/2025