O mercado de IPOs no Brasil: uma crise prolongada e seus impactos no setor de M&A
Nos últimos anos, o mercado de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs) no Brasil vive uma crise prolongada, marcada por um hiato que já dura mais de três anos. A última companhia a abrir seu capital foi a Vittia (VITT3), em setembro de 2021, um marco em um período em que o mercado de ações brasileiro ainda estava em alta e renovando máximas históricas, apoiada por um contexto de juros baixos em 2020 (2%) e 2021 (9.25%), que estimulam investimento em venda variável e M&A. Desde então, o cenário monetário tem sido bem diferente e não há expectativa de queda abaixo do patamar atual de aproximadamente 13% antes de 2026, já que a inflação segue alta.
O contraste com o auge de 2021 é nítido: naquele ano, o Brasil arrecadou US$ 14,73 bilhões com IPOs, quase o dobro que os US$ 8,47 bilhões de 2020. O apetite voraz dos investidores, aliado a taxas de juros historicamente baixas, estimulou empresas de diversos setores a buscarem a bolsa como uma alternativa de crescimento. No entanto, a euforia do momento logo deu lugar a uma desaceleração previsível e, como se dizia no mercado, “quanto mais alto se voa, maior a queda”. A maioria das empresas que abriram capital na última década no Brasil teve um desempenho aquém das expectativas: mais de 80% delas viram suas ações desvalorizarem após a estreia na bolsa.
Essa realidade revela um paradoxo desconcertante. Apenas 10% das empresas que realizaram IPO desde 2014 superaram o desempenho do Ibovespa, o principal índice da bolsa brasileira. O reflexo disso é claro: investidores que entraram na oferta inicial não viram retornos satisfatórios ao longo do tempo. O desempenho das empresas que abriram capital em 2020 e 2021 é ainda mais dramático, com uma queda média de 54,6% em seus valores até 2024. Diante desse cenário, é compreensível que tanto empresas quanto investidores repensem a viabilidade de um IPO em um ambiente tão incerto.
O ponto de virada foi 2022. O Banco Central, em uma tentativa de conter a inflação global, elevou as taxas de juros a patamares recordes. O custo do capital disparou, tornando a bolsa de valores um investimento menos atraente. Ao mesmo tempo, o Brasil vivia um clima de incerteza política devido às eleições presidenciais acirradas, o que fez com que investidores adotassem a estratégia do “esperar para ver”. O resultado? Um deserto de IPOs que persiste até hoje.
Se olharmos para o histórico do mercado brasileiro, veremos que períodos de escassez de IPOs não são novidade. Contudo, o vazio atual leva à reflexão sobre o futuro: estamos presos em um ciclo vicioso ou prestes a viver uma transformação estrutural? Entre 2004 e 2021, a média anual de IPOs foi de 14. Desde então, esse número despencou para zero. O boom de M&A (fusões e aquisições) de 2020 e 2021, com 74 operações, foi impulsionado por um cenário favorável de juros baixos, algo bem distante da realidade atual.
Diante dessa ausência de IPOs, surge uma questão importante: será que estamos assistindo a um aquecimento do mercado de fusões e aquisições (M&A) como alternativa de crescimento? A teoria diz que empresas que não conseguem abrir capital poderiam buscar aquisições para expandir e levantar recursos. No entanto, a realidade é mais complexa. Os estudos indicam uma relação bidirecional entre IPOs e M&As. Embora os IPOs ajudem as empresas a levantar capital para aquisições, um mercado de IPOs moroso pode levar as empresas a considerar M&As como uma alternativa mais viável para expansão ou saída. O que acontece é que, quando o mercado público não oferece atratividade, as aquisições se tornam uma estratégia mais interessante para as empresas privadas.
Ainda assim, a falta de liquidez e o receio generalizado do risco estão freando tanto IPOs quanto M&As. Não é coincidência que a queda no número de IPOs tenha coincidido com uma redução nas fusões e aquisições. O ambiente político e econômico inseguro agrava esse círculo vicioso, afastando investidores e empresas, que preferem adotar uma postura de cautela. Análise feita pela Redirection International aponta que podem ter cerca de 80 empresas esperando ou com potencial de fazer IPO.
Neste contexto, é importante entender que a ausência de IPOs vai além de um simples reflexo econômico. Ela é também um sinal de desconfiança na economia. Quando empresas abrem seu capital, elas não apenas levantam recursos financeiros, mas também sinalizam uma aposta no futuro do mercado e do país. Além disso, IPOs bem-sucedidos geram inovação, empregos e movimentam a economia de forma ampla, ampliando a cadeia de suprimentos e criando novas oportunidades de investimento.
Em um cenário de IPOs saudáveis, as empresas podem utilizar as ações como moeda para aquisições, dinamizando ainda mais o mercado de M&As. Avaliações mais altas também refletem a confiança dos investidores e um ambiente econômico favorável, gerando uma reação positiva em cadeia.
Por fim, o impacto da escassez de IPOs é palpável não apenas para o mercado de ações, mas também para os fundos de Private Equity (PE), que dependem das saídas através de IPOs para realizar seus investimentos. A falta dessas saídas dificulta a movimentação de recursos e prejudica a capacidade de reinvestir em novas empresas.
O que fica claro é que a falta de IPOs não apenas prejudica empresas, mas também o crescimento da economia brasileira como um todo. Para que o país retome o caminho do crescimento e da inovação, é necessário que o mercado de IPOs volte a se aquecer, restaurando a confiança dos investidores e abrindo portas para um futuro mais promissor. Autor Adam Patterson é economista com atuação internacional e sócio da Redirection International.
Com informações da NoAR Comunicação 27/03/2025

