O setor de seguros apresentou em 2024 o maior número de transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) em três décadas, segundo um estudo da KPMG. No total, foram 42 operações, número 27% superior ao registrado no ano anterior. A expectativa é que este ano seja novamente movimentado, ainda que o cenário econômico seja desafiador.

“O mercado como um todo ainda está incerto, com custo de capital alto, e nem sempre o empresário está disposto a baixar o preço por causa disso, mas algumas empresas mais endividadas podem buscar investimentos ou novos sócios para reforçar sua posição no mercado”, diz Fernando Mattar, sócio da KPMG.

O perfil das aquisições no setor securitário mudou nos últimos tempos. Há cinco anos, o movimento era de consolidação de seguradoras por ramos, com grandes transações voltadas para o ganho de participação de mercado. Agora, essa consolidação ocorre nos canais de distribuição, principalmente com as corretoras de seguros, diz Mattar. “Como é um negócio que depende da proximidade do cliente, comprar é um caminho fácil e eficiente para ganhar mercado e expandir”, aponta.

No ano passado, uma das operações mais relevantes no setor segurador foi a venda, pela Rede D’Or, da D’Or Consultoria, corretora de planos de saúde, dental, seguros de vida e previdência, para a MDS. A transação de R$ 800 milhões foi fechada em maio e aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em agosto.

Segundo Mattar, as operações vistas nos últimos anos refletem também a busca por inovações tecnológicas, o que pode ocorrer não só por meio de fusões e aquisições, mas também com parcerias com insurtechs. Ele acredita que a diferenciação no atendimento ao cliente continuará sendo um dos principais motores das fusões e aquisições no setor de seguros nos próximos anos.

“É nesse ponto que as insurtechs aparecem, porque muitas delas estão criando outras formas de falar com o cliente. As companhias de maior porte acabam ficando com tecnologia defasada e avaliam que pode ser mais eficiente comprar ou fazer uma parceria para melhorar a experiência do cliente.”

No último mês, a corretora de seguros It’sSeg Acrisure anunciou a compra da insurtech FINN, especializada na venda de seguro garantia e que atua monitorando as possibilidades de demandas judiciais, por exemplo. O valor da transação não foi divulgado. “A aquisição está alinhada com a nossa estratégia global de nos posicionar como uma empresa de tecnologia voltada ao seguro”, diz Thomaz Menezes, presidente da corretora e ex-CEO da SulAmérica Seguros.

Desde 2022, a Its’Seg faz parte do grupo americano Acrisure, uma das maiores corretoras de seguros globais. “Assim como ocorreu com outros setores, a indústria de seguros tem se consolidado na busca de mais recursos, do desenvolvimento de novos produtos e tecnologias e de ganho de capilaridade”, diz Menezes.

No total, foram 15 aquisições feitas pela Its’Seg de 2014, quando foi criada, até agora. Em 2024, foram duas operações: em maio, a empresa comprou a corretora mineira SIMgular; em outubro, a cearense Montpelier.

“Nesse processo de M&A, incorporamos empresas com expertise em outras linhas de seguro. Hoje, nossa carteira é predominantemente de benefícios, mas a gente já tem uma participação expressiva em ramos elementares, por exemplo. Nossa meta é ter um equilíbrio entre setores”, afirma. O executivo prevê novas operações em 2025. “Temos um ‘pipeline’ com mais de 20 empresas. Queremos reforçar nossa presença em novos Estados”, diz Menezes.

Outra corretora que anunciou uma aquisição neste ano foi a Gallagher. Em fevereiro, ela comprou o Grupo Case, de São Paulo. Os termos financeiros também não foram divulgados. “É uma união que nos permitirá expandir nossa atuação em benefícios corporativos e saúde, aproveitando o talento e a expertise de nossos novos parceiros”, diz Rodrigo Protasio, presidente da Gallagher Retail no Brasil.

A Alper Seguros comprou quatro corretoras de janeiro para cá. Segundo a companhia, foram investidos neste ano R$ 150 milhões nas aquisições e a meta é chegar a R$ 400 milhões em novas compras até o fim de 2025.

Em janeiro, a Alper fez a aquisição da Ducais, especializada em benefícios e com sede em Belo Horizonte (MG). Em fevereiro, comprou a Humani, de São Paulo, voltada a benefícios para pequenas e médias empresas. Em março, anunciou a expansão para o Centro-Oeste, com a aquisição da Reolon, corretora especializada em seguros para o agronegócio com sede em Lucas do Rio Verde (MT). Agora em abril, comprou a paulista Siena, especializada em seguros de vida em grupo por contratos de adesão, com foco em entidades de classe.

Segundo o estudo da KPMG, as transações entre empresas do mercado doméstico corresponderam a 45% do total em 2024. Outros 40% envolveram estrangeiros adquirindo capital de companhias estabelecidas no país. O restante é de nomes brasileiros comprando empresas de fora do país ou estrangeiros comprando de outros estrangeiros capital de empresa estabelecida no Brasilsaiba mais em Valor Econômico 20/04/2025