O mercado de capitais brasileiro vive um paradoxo silencioso. Enquanto as telas de negociação refletem a volatilidade de curto prazo, nos bastidores da bolsa, um “shadow pipeline” de proporções históricas foi confirmado.

Durante o B3 Day, realizado nesta terça-feira (16/12/25), Viviane Basso, vice-presidente de operações da B3, abriu a “caixa preta” das listagens e revelou um dado que redefiniu as expectativas para o próximo ciclo: 54 empresas já possuem registro de companhia aberta (categoria A) e estão tecnicamente prontas para realizar seus IPOs.

Segundo a executiva, essas companhias mantiveram suas estruturas de governança ativas e aguardam apenas o trigger de mercado. Mas limitar a visão a essas 54 empresas é ignorar a verdadeira dimensão da oportunidade apresentada no evento.

A Profundidade do Iceberg: O “Addressable Market” da Bolsa

Os números apresentados por Viviane Basso desenham um “iceberg” de ativos reais que desafia a narrativa de estagnação. A B3 mapeou três camadas distintas de maturidade que compõem o futuro da bolsa brasileira:

  1. O Alvo Imediato (1.000 Empresas): A diretora citou que existem cerca de mil companhias que faturam mais de R$ 500 milhões com potencial imediato de listagem. Este é o middle market premium que o “Regime Fácil” da B3 visa capturar.
  2. O Motor de Tração (3.500 Empresas): Logo atrás, o radar da bolsa identifica 3,5 mil companhias ativas com faturamento acima de R$ 500 milhões ainda em fase de crescimento acelerado. Para o investidor, representam o alpha futuro: negócios escalando agressivamente antes de buscarem a liquidez pública.
  3. A Base da Pirâmide (121.000 Empresas): O dado mais surpreendente revelado no B3 Day é a capilaridade: há 121 mil empresas com faturamento acima de R$ 300 milhões também em rota de crescimento, sinalizando uma profundidade econômica capaz de sustentar uma indústria robusta de Private Equity por décadas.

O Que Destrava a Janela?

Para transformar esse potencial latente em ofertas reais, o mercado depende de uma confluência de fatores. A reabertura da janela não é uma questão de “se”, mas de “quando”, sustentada por três pilares fundamentais:

  • Arrefecimento da Curva de Juros (O Gatilho Real): Com a Selic em patamares restritivos, o custo de oportunidade da renda fixa inibe a migração para equities. O mercado projeta que o início consistente de cortes na taxa básica será o sinal verde para os sindicatos de bancos.
  • Estabilidade Fiscal e Câmbio: A previsibilidade é a moeda de troca para o investidor estrangeiro. O capital global exige clareza fiscal para alocar risco em emergentes.
  • Valuations Atrativos vs. Realistas: O próximo ciclo será marcado pelo “flight to quality”. O destravamento passa pelo ajuste de expectativas de valuation por parte dos fundadores, priorizando geração de caixa sobre promessas de crescimento infinito.

Raio-X Setorial: Onde Está o Dinheiro?

Cruzando os dados das 54 empresas prontas com o universo apresentado por Basso, a tese de investimento se concentra em três verticais:

  • Infraestrutura e Utilities: O setor mais aquecido, impulsionado pelo Marco do Saneamento. Empresas como a Aegea são vistas como candidatas naturais para reabrir o mercado, oferecendo previsibilidade e proteção inflacionária.
  • Agronegócio 2.0: O foco sai da terra nua para a cadeia de valor (insumos, logística, tecnologia), unindo a produtividade do campo à governança da Faria Lima.
  • Tecnologia Rentável: Dentro das 3.500 empresas em crescimento, destacam-se as de tecnologia que já atingiram o breakeven, atraindo investidores que fogem da queima de caixa.

O Espelho da História: 2007 vs. 2021 vs. O Novo Ciclo

A confirmação de 54 empresas no gatilho coloca o mercado diante de uma perspectiva concreta de retomada que dialoga diretamente com os dois maiores anos da história da B3:

  • O “Padrão Ouro” de 2007: Até hoje o recorde imbatível em atividade, com 64 IPOs que movimentaram R$ 55,6 bilhões (valores nominais da época). Embora nominalmente superado por 2021 (R$ 65 bi), se ajustarmos esse valor pela inflação (IPCA), o volume de 2007 equivaleria a mais de R$ 130 bilhões hoje, tornando-o, de longe, o maior fluxo de capital real da história.  Foi o ano da entrada da classe média na bolsa e da estreia de gigantes de infraestrutura e construção. 2007 não foi apenas sobre volume; foi o ano em que o Brasil recebeu o Investment Grade” (grau de investimento), atraindo um fluxo de capital estrangeiro que permitiu a dezenas de empresas brasileiras mudarem de patamar.
  • A Liquidez de 2021: O recorde financeiro, com R$ 65,6 bilhões captados em 46 ofertas. Foi um ciclo marcado pela tecnologia e digitalização, impulsionado por juros artificialmente baixos.Diferente de ciclos anteriores focados em commodities e bancos, 2021 foi marcado por uma diversificação inédita de teses, refletindo a digitalização da economia e novos hábitos de consumo: (i)Tecnologia e Digital: O setor ganhou protagonismo, simbolizado pela listagem do Nubank (embora na NYSE, drenou liquidez local) e empresas como Mosaico e Bemobi. (ii) Energia e Agro: A Raízen (RAIZ4) protagonizou o maior IPO do ano, levantando R$ 6,9 bilhões, consolidando a tese de energia renovável. (iii) Saúde e Serviços: O setor de saúde manteve-se aquecido com Rede D’Or (final de 2020, mas influenciando 2021) e Hospital Care, enquanto o varejo de serviços viu a estreia da Smart Fit. Este volume foi impulsionado por uma taxa Selic historicamente baixa (iniciando o ano a 2%), que forçou a migração de capital para a renda variável, criando a “janela perfeita” que o mercado aguarda ansiosamente se repetir.

A Visão do Consultor

Para CFOs e controladores, a mensagem de Viviane Basso em 16/12/25 é um alerta estratégico: há espaço, mas a fila é longa. As 54 empresas registradas têm a pole position, mas as outras 1.000 estão logo atrás.

A recomendação é a antecipação. Com um universo de 121 mil empresas crescendo acima de R$ 300 milhões, a disputa por atenção dos banqueiros e investidores será acirrada. Quem aproveitar o hiato atual para profissionalizar a gestão e auditar números não apenas sairá na frente, mas ditará o preço da sua própria oferta quando a janela se abrir.

Este texto e a imagem contaram com a ajuda de inteligência artificial a partir de informações oficiais e de base de dados publicados pelo Portal Fusões & Aquisições. O trabalho foi revisado antes de sua publicação – Redação do Portal de Fusões & Aquisições 20/12/025